Cabelos são ideogramas

1.

Cabelos são ideogramas que dissolvem a linguagem.
Minha fascinação pelo destino cego faz deles cavalos-marinhos.
Primeiro instrumento do vento, memorial dos espelhos.

2.

Cheiro é desordem, sobre a fronha
evapora recente a água da contaminação.
Cabelos não dissimulam, somos nós
que não sobrevivemos às ondas.
Cortamos, aludimos em cores
a épica do crescimento.

3.

Negar todo o resto, afirmar isso e aquilo.
Então a verdade se curva
se trança pelas manobras da página
se povoa do que se lava.
Teu cabelo é o teu cheiro
te leio sob as franjas do mundo.

tua morte tartamudeia o azimute
é ofício saber cantar onde se quis mudo?
o assombro só conhece o teu nome
estas palavras derruídas: carne, sangue, sombra
agora órfãs e cheias de memórias, como algas secas
sujam o mundo: contínuo, mágico, submerso
orla de estrelas brutas e narcísicas
apagadas dentro do lago pelo amanhecer

Uma casa perto
de um vulcão
pode ser
um rastro da gente
jamais extinto
a ciência nega
mas a lógica subvulcânica
do povo sustenta
evidências de nós
uma casa-oferenda
há quarenta milhões de anos
lava oceanos
e um barco de orixá
faz a vez de vaso
de planta
subvertemos o risco:
imergir e germinar
são movimentos
inerentes às casas
às gentes
e aos vulcões
um subúrbio ou iguaçu
nada é novo no epicentro
desse rio
que não nos suplanta
somos o alicerce
a planta da casa
nasce dos pés

Flashes

1.

A beleza enevoa minhas mãos
Me defendo dos estados absolutos
A política multiplicou meu contorno
Variações ensimesmadas da liberdade

2.

Fotografo onde sou rocha
Via de acesso aos teus imóveis
Alarde das coisas franzinas
Beleza enevoada nas mãos

3.

Hora feita na clarividência
Anteparo dos gestos arredios
Súbito levar-se
Hora moicana

4.

O desenho da paisagem imola
Onde sou alma adentro
Onde sou nuvem escarpa
O olho se fecha lentamente com teus dedos

5.

É súbito ter um corpo feito de outros
Tudo gravita e rasga ao rés da voz
Só é permitido o gemido da verdade
Silencio o que toco

Insônia em Tamarit

A fadiga dos letreiros.
Os trens, apascentados.
Camadas persa e umbrática do mundo.
Tapetes noturnos, vigilantes, inocentes.
Fachos e taquicardias.
O sono pesado nas galés –
neón, silício, papelão.
A pele policarbonata dos poetas.
O polímero nos pássaros.
O orgulho, filisteu, dos corajosos.
A mística dos medrosos.
Toadas de tiros e enumerações gazélicas da morte.
A musculatura dos fantasmas.
Lorca na casida de minha mãos.
O sexo em tudo.
A água e o pesadelo.
Cidade saturnada, soturna.
Saturações de Granada
e um Rio prestes a estourar.

Dor de rejunte na tábua das pernas. Piso e coagulo. Hormônio. Feromônio. Demônio. Pensar uma via de elipses. Solapar os êxtases. Metamorfosear o agregado de células. Proteicas, desprotegidas. PH ácido na suavidade do rosto. Inflamatória. Chovida em Pernambucos. No ecrã e nos ouvidos, a história do eterno.

selfie para Vivian Maier

fotografava impreterivelmente
as tardes
linhas de sombra
escalas de cinza
o peito uma assimetria de folhas
seu rosto em qualquer lugar
cada viagem
mais longe
um sol mais pungente
volátil como o dorso das cobras
reflexo de um amontoado de gente
no vazio suspenso
em avenidas inclassificáveis
na textura incrível do horizonte
alguma madrugada rara
e um retrato que nunca tirou