Me leve desse rancor
o mundo quer cordas para se enforcar
mas leve pelo peso
deformado nas ancas
(vigas ainda desventram Fridas).

Me leve dos galpões, dos golpes
onde só há versões
e os fatos sucumbem ao que passou.

Nosso abraço sem solução
se delicia de nós, estreita o Rio
retrato demorado
de dois orbes.

Se há uma história silenciosa
prestes a colidir
corre pela linfa
protege ou nos sentencia.

Se há esse espesso
mágico líquen
somos elétricos e úmidos.

Me leve
pela roda dentada do tempo.
Sorriremos.

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Um comentário sobre “

  1. poemas sem título tem uma longa e bonita tradição…. usualmente fogem daquele eu-lírico bem montado e, por muitas vezes, é a marca que o autor mais se interessa em deixar porque talvez os títulos encaminhem para determinadas leituras, dando o tom da leitura, orientando; fica-se a boa sensação de que os versos podem ir para qualquer lugar…

    uma explicação mais superficial é que o poeta não se preocupa com a publicação já que há no mercado editorial essa preocupação mercadológica com o título das coisas, que são voltados para o consumo dos leitores. E alguns poetas claramente, não o fazem por este mesmo motivo, embora muitos deles sejam autores comercialmente conhecidos.

    outra explicaçãoo pode ser fruto do moderno ceticismo literário, lá em Joyce e Proust, Maiakovsky, Pound, Mallarme, Gertrude Stein e tantos outros que romperam com tradição linguística vigente.

    uma outra seria a vontade de variação do eu-lirico, de diversificar sobre si mesmo, entoando ou encarnando pessoas, heterônimos, também frequentes na cisão do modernismo… ser temperalmente desinteressado em terminar, porque para o poeta, a poesia é sempre uma aproximação, NUNCA É, definida em si mesma, congelada.

    e todas estas explicações podem caminhar juntas

    o conhecimento das coisas não se deriva dos nomes… nenhum homem prefere por a si mesmo ou
    a desenvolvimento de sua mente totalmente no poder dos nomes. (Platão, Cratilo)

    carlos drummmond de andrade – a procura da poesia [excerto]

    Espera que cada um se realize e consuma
    com seu poder de palavra
    e seu poder de silêncio.
    Não forces o poema a desprender-se do limbo.
    Não colhas no chão o poema que se perdeu.
    Não adules o poema. Aceita-o
    como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
    no espaço.

    marianne moore – omissions are not accidents

    By intuition, Mightiest Things
    Assert themselves — and not by terms […]
    Omissions are not accidents.

    alberto caieiro – ficcoes de interludio

    O Universo não é uma idéia minha.
    A minha idéia do Universo é que é uma idéia minha.
    A noite não anoitece pelos meus olhos,
    A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.
    Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
    A noite anoitece concretamente
    E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso

    um abraço

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