folhas juncos fios
de eletricidade
um rio
perto e deslembrado
uns emaranhados
automóveis vão buscar meu pensamento
em cascata
água – vegetabilíssima
nua – corto-me
torren
teza
cacho
eira
fluxo: de vidraças
contra o relógio
pra quem sabe
quebrar

Deixei o terreno insondável dos pássaros
acordos escusos com azuis
bicos, vermelhos, garras.
Delicadezas imaginadas
musgo e merda
selvagem que cobre o chão.
Caminho sobre selvas desossadas
guerreiros canibais, chorume
bala perdida e gás lacrimogêneo.
A indiferença assassina.
Homens sem rosto assediam
ventres metonímicos e pernas
halterofilistas.
Civilizadamente, deixamos de existir.

Something to live for

me nina
nina as notas do meu atraso
escrevo acometida
em algum terreno baldio
às vésperas de sair
correndo
com palavras como
nêspera, progresso
com desejos aleatórios de batismo
com átomos encharcados de coral
e canto
viver numa cidade cinza
que não fosse só
a mim numa cidade cinza
algo para se viver
mesmo transladada
por estrelas do mar
me nina
nina as notas dos meus sentidos

Amor é não dizer o amor

o preço a ser pago
por não dizer:
“então é inescapável”

leve por nada
dizer:
“bom dia, amor”
“bora escrever”

se é sempre muito cedo para o que se ergue
somos dois personagens à procura de um amor

seis personagens à procura de um autor
quem somos? quanto somamos?

se o que se desdobra de nós
é mais ou menos do que não
sabemos?

dizer
dizemos.

2015

Seremos ricocheteados
outra vez
pela esperança.
Barbas de molho
e mais tempo para ler.
O dinheiro vai todo para a caridade
dos sebos essas casas
de abandono das mãos.
Entre otras cositas más
Uruguai, meu bem
planejamos partir
na madrugada mais agra:
a insônia é o fermento do amor.
Sinto a fome dos leões
ainda arranhando as costas
carne preenchida ancorada
de imprecisão.
2015 seja
uma saúva gorda
nos dê muita terra
e a terra seja firme
para que possamos dormir
horas mochileiras
hora funcionária pública
hora não aguento
e te abandono, meu mar.
Escrevo de vez
agora no deserto de São Paulo
com o sol raspando nos dentes
um sorriso carregado
bronzeando o inverno.
O futuro
é logo ali.

Tom Zé

que se diz Galeano
que dizem gênio
que é uma sombra que cresce
(gênio é um legado)
corre atrás da bola.
Que não é gênio
que se diz japonês
que é monstro
em Montreux.
Tom Zé
teu samba farpado
de arame martelo
que fere o sândalo
cidadão.
Ah, senhor cidadão
doente
que corrobora
ajeitadinho
estudado
o cu do mundo:
Tom Zé te olha.