Eternidade

Você que parecia o início
dos elementos postuláveis
em torno do qual permitiríamos
um tácito derrame das venezianas.
Seu perfil nas prateleiras –
o rosto de Ulisses, noites de Céline
(oniausência, história do pranto
O Aleph, o Chaplin).
A você, onde não há você
subjaz um novo sob o sol
da outra vida, nela adivinharei
ainda mais as distâncias.

é uma questão de
impostação

ouça: a manhã
é jovem

mas tem na curva
sua lira

quem canta os antepassados
quem arranha cordas
quem não volta

e torna o aço mais humano
mais carregado que nuvem

abstrata de tão doce
palpável de chuva

por conseguinte

sismo, fermento
menino pio
sabe acender o tamanho

das coisas que deslumbram

Violadas as palavras
se repetem (se repetem)
nas mãos de cego
o poeta nada comunica
toca o alvo e a sede
instrumento do canto
guarda o silêncio
na boca do amanhã.

margem de erro
de rio, terceira margem
assombração
para mais ou para menos
parachuva
arroios, brasis
sabedoria dos grotões
sudeste, sudoeste
vento inconsequente

hora oscilante
dopamina em baixa
rasga cada momento
na trilha do cérebro
nunca satisfaz
por meta
o ancoradouro
dos olhos
maré alta, cidade suja
flertes, ritos pagãos
silenciosa
agraciada pela sorte
do anzol

Desejo

Um pouco do medo
esgarçado em nossa roupa
tiramos com pressa.

Temos chuva e parecença
onde só havia um poço.

Cavo teu peito novo
súbito encontro sede
além do mar.

cabeça grande
costas nuas

largo fardo
embrulho pouco

frágil
de antemão

detém-se
brusco

açoite
de convivas

animal do silêncio
ânima peridural

fala com cem teias
e come

bípede
polígono

homem de creta
excretor de fracassos

pesa-lambda
geômetra em si

ambi
valente