poesia

Foi preciso muita palavra
até arrancar deste silêncio
um lugar seguro.

Que não dá o seu paradeiro
leva minhas pernas
antiogiva de mim.

Recuso fragmentos
tenho força de abandonar
o caminho escuro.

O que seja a minha lei
desfaço
abro-me ao sol inteiro:

quero um corpo para dizer.

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O homem executa um pequeno número de ações.
Ama, inspira, desaparece.

Trai, multiplica, esquece.
Joga todos os livros fora.

Menos o livro com a palavra derradeira,
da língua que nunca disse.

Doravante, nunca jogou nada fora,
nunca teve nada.

Como na origem de certas árvores
intocadas na profusão das matas.

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Covil

Escolas que funcionam como jaulas.
Presídios como maternidades do horror.
Na burocracia os afogados de todo o sistema.

Dentro da terra, um perfume oco
de bomba, eco sem lastro
guerreia o pensamento, atira para o êxtase

nefasto da espécie.
Termina a segunda dentição
os lobos devoram por dentro.

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perdidas as
dickenianas esperanças
você no fundo de um rio
pedras nos bolsos
onde se lê: bem vindo
a essa outra história

que mistura a cinebiografia
de vidas imaginárias
com letras açodadas pelas águas

resolve comparecer a este encontro
fraudado poeticamente
em suas próprias aniquilações
ínfimas

corroborar a ideia
dos alicerces
e do peso dos guindastes
sobre certas estruturas
concreto, músculo cardíaco
chapas de papel e aço
que te levam
do frio secular inglês
ao seu apartamento

você se recusa
a colocar mais lã em seu corpo
faz do edredon essa asa insólita
que agora te esquiva do mundo
enquanto não tem a menor ideia
de como reescrever certas palavras
anjo e soberania

continuar a escrevê-las
é o que te leva às ruas
para olhar os guindastes
e as praias cheias
de poeira branca

você diz lapa
você olha os bares lotados
de piercings, tatuagens
sinais digitais
concursos públicos

para sondar sobre as belas muralhas
humanas
a manhã que te acordou
sem esmorecer
fresquinha

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