o medo entrará em nossa casa
nos recortando
como num conto de Cortázar
não saberemos por quê
por fim, foragidos
do perímetro de um país 
o coração
na saudade eloquente e pagã
forjada nas distâncias 
das coisas não paridas
– mesmo partidas
as coisas têm um nome
ouço
os espaços vagos
do dia em que nascemos

Brisa

Teus dias de olhar claro
pra mais de longe
o faro

canino da inocência 
aspereza e rua
sobrevivência

caminhas – a insubmissa
doçura 
por tantas portas

teu modo a tudo
vivo, interrogo
teus longes, teus reinos

um cão, a casa.

Leitmotiv

O brilho do sol
como o brilho da morte
quer fecundar as coisas
de fogo.

O fim indica um desejo
espesso
de nascença.

Havemos de encarnar o universo
que nos abocanha –

flutuava dentro do mar
que mais e mais me dragava
não teria braçadas
no fundo
os raios ainda chegavam
escapei
mas tudo é afogamento.

Teu beijo de nunca
teu corpo de vísceras
e nuvens
e núncaras
tua voz
uma cor

para sempre me abrindo.