poesia

Essência canibal

Devorei os motivos pelas bordas
expondo sua essência quente e volátil
mas algo no sistema se inverte:
o conteúdo me abocanha
o dia a dia me digere.

Não frequentei tanto as aulas de ciências
quer dizer, no ranço de lembrar
que agora os significados se esbanjam
como excrementos, todos
convencionalmente banais.

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Agora que as palavras não me cartografam
e cartografa me parece tão distante
os dias são mais longos
minha imagem, nítida e severa.
Posso estender a bandeira branca de uma página em branco
sobre meu corpo branco.
Não haverá resgate
nem palavras que mirem no espelho meu rosto esquivo 
e o corpo que não larga o osso
da poesia, se descalcifica
sei que as palavras ferem porque se perderam de nós.

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Devir

Te ofereço fervor e doçura
um desalento filosófico
ainda a fugacidade 
de qualquer alento 
na progressão imperturbável 
de um cometa
acendendo na atmosfera 
uma nova rota
com que justificamos 
alguma perda.
Não há palavra que encalce 
o rastro 
que não deixamos.
Vindo a ser: teu cheiro.

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Tento escapar à aniquilação
(noturna memória). 
Encho o horizonte
com o eixo dessangrado
do corpo em exílio. 
Com a minha língua de faca,
desfio o lume do verbo.
O paladar não me abre sóis, 
mas despenhadeiros. 

(Quis ser cotidiana, antes da fraude dos espelhos.)

Nota