Meu corpo jovem concentra alta invalidez. Tenho páginas abertas sobre as pernas. São estradas as obras demovendo as paisagens da infância? Bartleby, minha duna. Descendemos da imobilidade.

Essência canibal

Devorei os motivos pelas bordas
expondo sua essência quente e volátil
mas algo no sistema se inverte:
o conteúdo me abocanha
o dia a dia me digere.

Não frequentei tanto as aulas de ciências
quer dizer, no ranço de lembrar
que agora os significados se esbanjam
como excrementos, todos
convencionalmente banais.

Junho

Então, os véus se tocam.
Bandeira, gás 
o corpo em luta.
Seja no quarto, seja na rua.
Tudo é cálice, todos se bebem
e aludem, apaixonados
quebrando grilhões
músculo estriado
mundo – a luz
que sobre eles desce
é noite mais funda.

Agora que as palavras não me cartografam
e cartografa me parece tão distante
os dias são mais longos
minha imagem, nítida e severa.
Posso estender a bandeira branca de uma página em branco
sobre meu corpo branco.
Não haverá resgate
nem palavras que mirem no espelho meu rosto esquivo 
e o corpo que não larga o osso
da poesia, se descalcifica
sei que as palavras ferem porque se perderam de nós.

Devir

Te ofereço fervor e doçura
um desalento filosófico
ainda a fugacidade 
de qualquer alento 
na progressão imperturbável 
de um cometa
acendendo na atmosfera 
uma nova rota
com que justificamos 
alguma perda.
Não há palavra que encalce 
o rastro 
que não deixamos.
Vindo a ser: teu cheiro.

Tento escapar à aniquilação
(noturna memória). 
Encho o horizonte
com o eixo dessangrado
do corpo em exílio. 
Com a minha língua de faca,
desfio o lume do verbo.
O paladar não me abre sóis, 
mas despenhadeiros. 

(Quis ser cotidiana, antes da fraude dos espelhos.)