Se a dor concentra suas próprias armadilhas
como esquadrias soltas e janelas
valho-me de serpentes, guitarras e buracos negros
sobre demoventes ilusões.

Os meteoros fazem riffs sobre as tumbas
o que habito é uma cidade em seu neón –
uma nova gravitação, no corpete, irônica.

me digo mis silencios, Pizarnik tatuada
nas omoplatas, como escadas aos anjos

caídos, decreto moratória dos falidos
tenho um ventre que mente até o fim da vida:

sou minha estátua de sal sem dó, sem Ló, persuadida.

Proporção

Somos alucinadamente pequenos
mas a grandiloquência também nos sonha

lucidez ao revés da fala
língua em cordilheira

estreitando corpos –
razões nucleares.

Sonha comigo e me invade porque eu sou praia
cerca aramada, propensa imagem

teu universo me desdobra
e eu me recomponho, ínfima

desconfio que imensa
imensa do que não sabemos.

eu não tenho a visão da Bahia de Guanabara à minha janela
eu quero esquecer que a poesia se navega
tenho meus dois pés cansados
e os olhos encantados feito dois reinos postiços
e continuo a escrever porque a visão da minha janela é muito estreita
escrever tem sido a forma de realizar abandonos
esta seria a única resposta sincera: me faltam os instrumentos de navegação
que se chocam contra o cimento maciço
acho que há dias em que se pode ler um autor como Edgar Morin e morrer menos
porque o homem, o homem e a morte
este homem de quem ele fala
ainda não me tocou

falar um sem número de vezes as mesmas coisas, antes que seja tarde, poder largá-las. no mundo. agora rondam os gritos que demos rumo às vidraças que não quebramos. um garoto me mostra o seu rosto e impede com toda a gravidade que eu esqueça o meu, do alto do meu, já posso descer de dizer as coisas que não marcham. estou aqui, mas ao alcance da neblina.