poesia

Estrangeiro

O poema, eu me banho com ele
e ele escorre com a sujeira do meu corpo
– as palavras que eu direi uma única vez
fatigada de sempre as reconhecer.
Refazer o dia abrindo as janelas
e das cortinas libertar o sol.
São palavras de morrer
como o executado no livro:
abrir a janela
e suspender a claridade obscura
despir-se do rompante da sombra.
Mais que a morte
um só destino que me soa o futuro:
eu tenho lido todos os livros
entristecido a minha carne.
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Exercícios de fé | Dominical

i.
Preciso que Deus me guie até o seu paiol
e que do alto dos ocasos
brilhe a pedra fundamental
onde me lavo
em fogo, estrela
bruta e ampla –
crer que meus pés caminham
até a próxima explosão.

ii.
Todo domingo. Uma confissão
de que todo domingo
é uma fraude
sem missais.

iii.
Preciso que o deus venha
áspero, desesperançado
nuns olhos de Clarice.

iv.
Que se redescubra o fogo.

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Crescimento

O ar, punhal cortando
a camada de acontecimentos

em finíssimos respiros da leveza.

A voz, modulação desse ferimento
erigindo um canto

da casa, árvore para a qual
deixamos nossos asteroides

onde arrancamos como praga
a brotação de baobás.

Somos príncipes devolutos
do que nos sucede

nos fazemos para o tempo –
sombra

dando de morrer às próximas gerações.

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Fôlego

Me ensina a ficar mais tempo
debaixo d’água

alcançar
as profundidades do abismo

ser de novo uma criança
(minha cabeça em teu colo).

Confesso ser urgente
muito mais que brincante

ter hoje o meu rosto
o meu destino

traçados em nossas bocas.

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