Rabisco

à procura
do fio da meada
no novelo da tarde

na cabeça, um bulbo

visto
um território âmbar
frio que esgarço

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Nem anjos, nem homens

I.

O corpo é cadafalso do voo. Não há pássaro. Só léguas.

II.

Meus pés dentro da terra: mandrágora. A flor do meu signo. Estrela terrestre do sofrimento.

III.

Como se forjasse a asa, como se a arrancasse. E é por precisar de asas. E é por desdenhá-las.

o tempo não apenas abre covas
meio dia existe com a fronteira clara
e simplifica na manhã o absurdo

posso ser daqui de minha saudade
a vida recomeça

no agora das praças dos beijos
das duas meninas
desafiando lobos mais feios
que nas fábulas

o que se conhece do tempo derruído
importa conceber
ao modo de fazer caminhos

leio fervorosamente nesta manhã
eu poderia estar em bali
em qualquer praia

nos desfiladeiros das montanhas
ser o chile inteiro
andina

o que sou nesta manhã
não importa mais
do que ser nesta manhã

Formas do mar

I

Lamber de lágrimas
para lembrar quem é –

um rosto que recomeça
a nadar

gostando a boca.

II

Deixa entornar, a água
não padece de membrana –
como explicar que somos dentro?
Com a mesma fluidez
e com mais visgo.

III

Tornar-se vento, depois de ser
do que te leva embora.
Recuperar a potência de lugar
e de partida. Depois, espuma.