Vocação

Ser água depois que a palavra queima.
Ser o nome de coisas simples.
Nossas mãos desenrolando rios,
oferecendo braços
por onde a Terra corre, absoluta.
Bebemos. Ao largo do manancial, vazio.
Bebemos com estreiteza,
a ideia de um corpo, transmudado alfabeto,
a ideia de um sopro de hálitos nossos.
Nos perdemos em fulgurações estranhas,
dentro de casas altas, como nós,
andamos frágeis sob a amplidão.

Penso que, definitivamente, estou desajustada à minha sociedade, a que enredo numa ideia de ascensão, contingente a do apogeu do fracasso. Chego ao início da maturidade com a biografia desordenada, falsamente desacontecida. Não sei se um dia se está apto a escrever a própria vida. Escrevo como que para rasgar papéis, mas eles me acumulam; espero que ainda venham me contar o que não pude. A intimidade com o vivido hipertrofiou o silêncio com o qual produzo minha inadaptação. No fundo das noites, sorrio. Agora penso em eclipse. Não sei o que pensar das mortes que já passaram por mim – como se alguém soubesse. Sim, como se alguém soubesse – um fio de esperança. Retomadas heroicas em palavras recorrentes, que esboçam crianças. Estão distantes, nesta altura. O meu trabalho é uma longa fila de velhos queixosos, como grande parte da vida e dos viventes. Só que os verdadeiramente sábios, que também estão lá (são quase sempre anônimos), desmascaram meu pesar e a realidade em que me considero despertencida; abrem o fulcral da vida: sua transitoriedade, que faz, ironicamente, com que eu seja possível. Então, definitivamente, sou aquela que não poderia ter dito: definitivamente. O sonho em que me acho, soberania frágil, me arrastou, da morte, para a vida, para várias vidas. Há cinco anos galgo o título de funcionária pública. A cátedra municipal do senso comum. Estou lá depois de fugir de muitos lugares. Ou diria, para ser otimista: depois de estar em muitos deles. Às vezes eu penso que os lugares mais incríveis não suportam sua eternidade. Ao final, se está neles para ter uma boa lembrança. Mas tenho aprendido que a memória é também saber esquecer. E nem vou falar do amor, como a construção do possível, ali, onde ele é um largo de incertezas e despedidas – estou a caminho. Quer dizer, de fato não me importa ser alguém que tem uma bela história para contar, mas nunca digo “não quero que me ouçam”. Ouvir é estar perto, e eu sempre quis estar perto, quero estar o mais perto de uma sensação de verdade, que tem mais a ver com a inteireza do que se é – isso te abre canal de respeitabilidade coerente com o fracasso. Ele tem uma rotina, o apogeu é só para contar a história. Talvez, da sua vida, ou de alguém por quem tenha compaixão, ou até admire. Todos os lugares são possíveis. Essa frase impregna a afetação do meu texto e venta concernente à chuva que entra pela janela, por agora impede que eu continue, porque, como um protótipo da desajustada, deixo-me olhar as paredes do meu quarto, em que se desenham umidades.

Nem o brilho cego, nem a sombra.
Nada se curva a qualquer matiz,
a nenhum nome.
Um homem não deserta.
Sequer encontra o ponto de partida.
Uma folha, que não se fere.
Nem a queda se faz pressentida.
Quem viaja, a nu de águas insubmissas,
sem fundo, sem superfície,
lançado ao veio de sua própria raiz,
encontra uma fatal pergunta
sonhando, em litígio,
estas horas, escrevendo,
ainda que para conceber um deus terrível.