nota insone

Não sei escrever, sei respirar. Não me isento. Sobrevivo. Com palavras, cipós, pássaros. Não tenho superfície? Tenho. E limite. Que esgarça a pele como se fizesse dela um riso. Tudo ri, no incêndio horizontal. As palavras se emprestam, são generosas as palavras. Infinita e traiçoeira é a noite. Assim, como se alguém tivesse acabado de dizer. Isto que todo mundo diz: o silêncio. O silêncio desaba. Na repetição do texto. O nome oriundo. Sem onde. Aquilo de que é o vento. Os loucos de Rilke, poeta que não vai. Deixar que outros nomes venham. Marina te beijou. Naquele poema que não bem me recordo. Queria ouvir o seu coração. A sucessão dos desejos. Era isso que dizia o poema. Um poema que não era um poema. Era a vida. E te beijou, Rilke, talvez achando, como os teus loucos, que nada está perdido. Grande poeta, Tsvetáieva. Prendo-a no meu não-texto. O que faço? Fluxo de nada. Consciente, pelas beiradas. Arrastando a aurora. Canso. Raízes me agarram, feito cipó. Respiro. Não escrevo. Quero. Hei de querer mais pássaros para a noite que não finda.

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