Escrever sangue

Percepção vital e precária de que as imagens nascem do sangramento da palavra. Escrever em recorrência, palavras como sangue, inevitáveis, necessárias, como o sangue o é.

Há quem diga vermelho do vermelho? Que de novo circula o oxigênio para as células? Que é festim o alimento que entranha a consciência? Enfadonho e que já tarda?

Pois bem, o sangue traz o sangue. Da natureza do fluxo, chamá-lo, dispersando a cor pelo seu nome. Revestindo, para avivar a forma. Imanente ao pensamento: formular por coágulos.

(Ver, antes disso, é como um bem sepulto. Anil de uma liberdade que não se engendra. Cegueira, que chamaremos saudade.)

Inverno

Caíram as folhas,
homens acorrem
para semear o presente.
Mantilhas desfraldam a terra
e os passos aprendem,
com as mãos ensanguentadas,
com a cabeça perfurada de dúvidas,
o que ninguém sabe, nem mesmo o frio.

nota insone

Não sei escrever, sei respirar. Não me isento. Sobrevivo. Com palavras, cipós, pássaros. Não tenho superfície? Tenho. E limite. Que esgarça a pele como se fizesse dela um riso. Tudo ri, no incêndio horizontal. As palavras se emprestam, são generosas as palavras. Infinita e traiçoeira é a noite. Assim, como se alguém tivesse acabado de dizer. Isto que todo mundo diz: o silêncio. O silêncio desaba. Na repetição do texto. O nome oriundo. Sem onde. Aquilo de que é o vento. Os loucos de Rilke, poeta que não vai. Deixar que outros nomes venham. Marina te beijou. Naquele poema que não bem me recordo. Queria ouvir o seu coração. A sucessão dos desejos. Era isso que dizia o poema. Um poema que não era um poema. Era a vida. E te beijou, Rilke, talvez achando, como os teus loucos, que nada está perdido. Grande poeta, Tsvetáieva. Prendo-a no meu não-texto. O que faço? Fluxo de nada. Consciente, pelas beiradas. Arrastando a aurora. Canso. Raízes me agarram, feito cipó. Respiro. Não escrevo. Quero. Hei de querer mais pássaros para a noite que não finda.