Poesia feita escápula

Poesia feita escápula,
acesa em Ícaro
(desvelo de seus remos),
praias abertas em que nadam
antigos desastres.

Ou sob o eixo da lua, sangrenta,
enchendo o mar para o que bebe,
águas singradas do sono
tangendo a pureza, até o leite.

Porque sucumbem, suas imagens
trazem o retrato potencial:
o exame das formas inexistentes.

E ilhargas, calos, tendões;
anatomia alada;
escreve-se para rompê-la.

Chegar onde saúdam –
o sol do breve entendimento.

Senhor, mais um dia a viver como praça.
Fundada não se sabe quando,
transeunte de tardes eternas,
com árvores ressentidas de pássaros
e pássaros como velhos
no coração das crianças.
Ferro descascado que declina a infância;
adiante, o seco chafariz,
raia dos alagados.
A água que não cresceu,
a água que não desce.
No seio, o leite das mães;
nas mães, o desvario.
A boca da fome,
alento, meu deus,
para cada quinhão de selva domesticada,
a não exortada grama
para a liberdade dos cães.
O arroubo de cem mil pombas
na fração de um sino –
esta oração de impensado poema,
durando no esquecimento.

Plasma

(para Marcelo Tosta)

Empondera-te da significação
com a paleta do sangue
e empreende em tuas cores
o vermelho inicial,
plasmando o texto irrepetível
nos olhos da existência:
um sol que se prolonga
até o centro povoado-
insular do homem,
matéria de fuga,
mito de si.
Cava buracos ao negro,
pintando teu primeiro amanhecer.
O ávido, o materno,
ave da terra,
engendra tua inocência
de sêmen e foice;
abre feridas no véu
de minha própria adolescência.
Face da paisagem,
na constituída entranha
de personagens que, espelhos,
admitem o vulto
e reencontram os rostos enamorados
de si mesmos;
reconstroem o abismo
de nascença.

Radial

Dispersa forma, lânguida.
O vermelho subterrâneo
e a crina espera.
Vencer a barreira dos sons
que me montam
para o ilimitado;
puro barro sem molde,
cavalo saído das brasas
de minha nuca;
selva e cidade.
Ser, olhando bem,
a melhor maneira
de coisa nenhuma.
Estar. Presa a nada,
partir, tudo,
estar aqui,
por ser, por dar.