Convite

Sábado
céu consolidado
trilhas ao redor do Rio.
Dizer sim ao não
saber outros meios
de chegar
molhando os pés
de areia.
Daqui a uma semana
talvez caminhem
até a impossibilidade
azul
hoje, toda palavra
é terra.

Com que pedaço de memória é possível dizer tudo?

Posso tentar outra vez.
Mas a palavra hoje não me limita.
Estou em tudo e em ninguém.
Falhei. Falhei quando, juntas
atravessamos a ilusão dos corpos
na unidade quase possível.
O ponto máximo de realidade
embora os sonhos queiram dizer algo:
que há um lugar aceso para o tempo
que não existe,
senão um lugar que nos pertence
na dimensão sombreada
da memória –
o que ama.
E o que ama tem a carne
dos avessos.
Não consigo tocar
mais uma vez
a carne da minha linguagem.
Tento; os nomes chovem
sobre meu corpo
ermo.
A palavra, manto de água
despe serventias.
Há sempre o lado
limpo do leito
que desfere o nome
vazio.
Como um último golpe,
dois adolescentes
o toque desesperado.
As mãos que amam,
as mãos que nunca tocaremos.
Que esbofetearam palavras de ordem
quando não fomos;
consumidos pelos anos
atravessando o fundo.
O tempo, não mais o medo.
Com que pedaço de memória
é possível dizer tudo?
Ultrapasso a linha de chegada.
Ano após ano, de um desejo
que vai afinando como a pele.
Mas, em cada coisa escrevo
o amor: seu nome altero,
sua marca indelével
que eu risco
neste branco
de pele.

Faço perguntar aos olhos
na arbitrariedade das imagens
o ritmo sincopado do destino
que não irá me explicar
por dentro do que vejo
as extensões da noite
o castanho da tarde
ou ainda, o furor solar
na manhã da vida.
Não irá me explicar
o rico desencontro
varando lençóis e ruas
de multidões que erguem
meu ver à revelia.

Não tenho mais
medo das palavras.
Por medo, a carnadura da fuga.
Não mais que um modelo vivo
franqueando o traço,
na transpiração do neutro,
desconstituindo o branco.

O que não seja possível
irremediavelmente
num cinzel, no meu corpo,
na chuva. Encontrando
palavras que esvaem.
Névoas de lascas
esperam.

Dos meus dentes,
as marcas.
Sorrindo, a raiva.
Ainda o nada
parado à porta de nós.
Despido, o medo entre
mim e mim.

Flâmula

O querer também é desdobrável, Adélia,
portanto, mulher.

Somos, no limiar das vértebras,
o vigor dos mastros.

Hasteados, a tocar
qualquer parte vital.

Para quebrar um caminho.

Nessa gaiola de entranhas,
nascenças que se querem bem.

Calcificamos,
para lhes abrigar o músculo.