poesia

Há uma nova contagem do tempo. A cada três e meio antigos minutos, a música recomeça. Soa como se me explicasse: o indivisível, o inimitável. Para que eu não entenda. O sol da primeira tarde. As próximas horas, cortinas a tudo. Esta solidão de pálpebras, sombras que refletem cercanias do mundo. Esperas: esferas. Tento ser o mais ágil, nos centésimos em que avanço do silêncio ao som. O fim quase inaudível. Como sempre, perco para os meus braços. Asas do incontável atraso do agora, na soma dos movimentos, das incompreensões, logo trarão o fim deste ato. Pode ser que o cansaço vença, ainda antes que o tempo se renda aos atrasos. E é só a música que tenho por parâmetro. Apenas este toque, dedos presumidos, intangível impregnado de urgências, que cobre há meia hora uma nova existência, que segue suas próprias convenções. Ocupo o sentido arbitrário aos meus sentidos, emoções a leis impostas, que eu sigo e quero seguir, como páginas de uma história. As escolhas se dão ao inevitável. Pressinto o amor que move o sol e as outras estrelas. Lamento empíreo. O sangue entre as notas, que as mãos destilam. O tema, esta rosa. Subo ao mais alto abandono. Não foi uma fuga para as minhas asas.

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Vago dia
sobre a multidão de dias
escoados
no asfalto da noite
pela hora do jamais.
Cético lirismo
de um Drummond,
uma crença Ciorânica.
Ao cair da imagem
de um pássaro esfacelado às turbinas
ou a pedras Beckettianas:
azul, doido, manso
moer – pedra a pedra
de mortal espera,
a lucidez, mortal:
“acredito na salvação da humanidade,
na vinda do cianureto”.
Morrer, a língua, de rir,
mas não morrerem as mulheres
tuas – sobrevindas
lágrimas, quedando a noite
com teu dia por dentro –
olho de um poema, centro de uma névoa.
No sol odioso da manhã
aclarando as formas do sonho:
a colisão frontal das bocas.
Palavras, enfim, palavras
sobre um último dia;
aquela noite também vaga
na incerteza,
como um amor que segue dizendo
nunca, nunca mais.

Nota
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Ver

o movimento das coisas
em cifrada aparição –

o eterno quer
lançar seus olhos
aos meus.

Nunca – ter visto
e o mesmo
ver, ver,
retirar-se

para a borrasca.

Se fosse cega
a paisagem,
se fosse igual.

Eu, cega
soberania para imagens.

Seria:

para o (não) ver,
para o fugaz,
para sempre

primeira retina.

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Livro

Abismo gutural, relvado. Silencioso voo.
Os verdes das páginas, que traduzem a branca queda.
Tudo, solar. O mundo a se desentranhar, de longe.
As mãos que eclipsam a palavra. Tomo-a chão, em meu leito.
Entre mim e mim: Tu, não te abres.
Pensava que a tradução, ao lado. E prossegui pela direita.
Como que outro livro, depois, um estranho – nunca me disses.
Outro sol também, talvez. Lia para a morte.
E a vida findava-se desde o primeiro toque.

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Turvatura

A luz irreal da tarde;
a sala habitada de monstros;
as sombras defendem-se atrás de mim.

Quase fumaça
sobrevoando outra vida
– cristal e poeira.

Bebo no cálice de fogo.
O espaço, mais nu do que a alma,
entrega-me os móveis de minha vó.

Ressinto-me
à frágil circunstância dos astros:

rota alterada;
raio inequívoco;
licor de tormenta.

As mãos envidraçadas
tocam as digitais de outrora:

fragor da infância;
desfolhar das balas;
as portas, as janelas

abriram-me para o incêndio.

Sobrevivi da noite,
por detrás das sombras, da fuligem,
restando o mesmo gesto:

encolher-me.

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