A volta de meus braços não me alcança. Falta-me quase um palmo entre as mãos, que inutilmente se buscam, na medida de meu parco abraço. Sozinha, não me circundo. Árvore suplantada. Meus braços não são os galhos que supus, só quedam ninhos, nos umbrais de algum canto obscuro. Escudo contra o peito, a cruz de dois gestos denegados. E no tumulto da espinha, a falta em luva: um palmo de ausência. Uma ave banida. Duas florações, irmanadas para minha desunião. Mãos que sucumbem sobre a pele. O toque impossível do toque. Acedo ao tato, calorosa intempérie. Fui o charco nos jardins, a protuberância nas palavras. Hoje, germino na evaporação das imagens. Ainda batalho o meu nome. Dizer-me não me chega. Insisto pelo sentido. Porque o mundo talvez seja ainda o berço de minhas raízes amputadas. A mão que faltou entre meus membros. Mas sei pela falta: o mundo não é o ser, o mundo nada tem com este abraço que segrega a mim.

Fugere

Anelo os rios de teu cabelo,
anjo desapiedado de mim.
Foges para as vidraças do céu.
Sustento os cacos dos fios,
os que cortaste.
Meu sangue tem raiz em tua cabeça,
orbe de minhas mãos.
Afago-te o planeta:
meu sangue, meu rio, meu anjo.
Chamar-te estreita-me em aneurismas.
Teu lago – fechas-me em foz.

Não há palavra que não ponha no cativeiro.

Para lutar o perdão,
que vem nodoso como a mão de um velho.

Engessa, a me perdurar,
exangue.

Linguagem, liberdade –
conheço teus muros.

O coração segredou-se
pedra viva
como um órgão do mundo
peixe alado
cavaleiro do sangue.

Compulsória paisagem
do espasmo
serenidade galopante –
tenho medo que pares.

Tanto amor terá fim.

Olho para o mundo
como se nunca tivesse existido.
Custa-me o dom do apagamento:
duas pupilas irrecuperáveis,
noite no azul do dia.

Minha visão segrega os homens,
eles não me acham.
Cada vez que bato,
dão com a porta de minha existência na cara,
eles não me abrem.

Mas redesenho
trilhas irremissíveis,
perdões grandiosos.
Relíquias que perduram no fundo do oceano
ao topo do futuro.

Ofídico

Naja alguma,
o veneno na cintura.

Mas estava sobre a cama
o próprio Butantan.

Quando deita na mulher
o réptil movimento

inocula um nome –
antídotos degredam.

Encouraça
o seio atingido.

A boca espreme
o anjo que a auréola reserva.

O amor custa a morrer.
Serpenteia no umbigo.