Jó foi feliz de estar sozinho
com seu sofrimento
quando tudo foi deposto

nem sobrara Deus, nem o canto
de qualquer recompensa.

Deus esvaziou Jó, esvaziou-se
como um ditador que arrasa uma cidade.

Mesmo depois, floresce o amor.

Em fardo, fogo, augúrio, glória.
O nada o incendeia.

Destino

Inverte a chegada à porta do descomeço,
teus lábios de perguntas queimam
do sol das chuvas de sangue.
Bebe o vinho que te fará redivivo
nos ciclos completos de dúvidas.
Ama o trago da terra amarga e segue
empós a ceifeira da renovação:
“a resposta está além dos deuses”.

Transporte

A boca come
às seis da tarde
o ouro de meu nome
numa carta que
não cheguei
a enviar.

Escreve:
hei de dizer a fome
que me devora a boca
hei de dizer a boca
(novena de silêncios

intifada
ante-fome
fome).

Sobre o desejo atlântico
o avião leva a prece memorável
para o teu lugar
algum.

Acenos

Com as mãos limpas do choro,
tocarás, em remanso,
o degelo das pedras
circundada pela maresia.
Ousarás a praia de tua absolvição,
contraventora sitiada,
embargadora da voz;
fitarás o desmedido silêncio.
Serão de águas os teus desertos.
A areia rebentará
a invenção bípede da contrariedade:
é o litoral por onde chego.
Se miro paisagens que divergem,
repetindo-me uma vida
altera de lágrimas,
valho-me, animal estrangeiro,
e campeio uma altivez iceberg.
Sim, cometi um grande engano,
lanço ao recife este lamento:
minhas mãos que me acenam,
manchas sobre mim,
há tempos que me matam.