Dialética

Um destinatário que fosse
o mais das vezes,
a permanência
de mim,
de um outro.
O prolongamento
de tudo quanto
(não) sou.
A espessura da folha
mal dizendo o espelho.
Mas eu me via:
era preciso inventá-lo.

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Jó foi feliz de estar sozinho
com seu sofrimento
quando tudo foi deposto

nem sobrara Deus, nem o canto
de qualquer recompensa.

Deus esvaziou Jó, esvaziou-se
como um ditador que arrasa uma cidade.

Mesmo depois, floresce o amor.

Em fardo, fogo, augúrio, glória.
O nada o incendeia.

Acenos

Com as mãos limpas do choro,
tocarás, em remanso,
o degelo das pedras
circundada pela maresia.
Ousarás a praia de tua absolvição,
contraventora sitiada,
embargadora da voz;
fitarás o desmedido silêncio.
Serão de águas os teus desertos.
A areia rebentará
a invenção bípede da contrariedade:
é o litoral por onde chego.
Se miro paisagens que divergem,
repetindo-me uma vida
altera de lágrimas,
valho-me, animal estrangeiro,
e campeio uma altivez iceberg.
Sim, cometi um grande engano,
lanço ao recife este lamento:
minhas mãos que me acenam,
manchas sobre mim,
há tempos que me matam.