poesia

Eu me pergunto se há tempo o bastante para os livros que não li. Ou se deveria, neste tempo que soçobra, devorado, reler livros fundantes, como a recuperar certa ignorância. Mas a tudo destruir e à minha ignorância – sabe a ilegitimidade da pureza ante a fome. Livro: pêndulo de máculas, tempo de palavras; isto sei, o moto vida-morte no tilintar das vidraças à chuva dos relógios. Brindo sobre mim. Haverá a formação do cristal, tempo inconcebivelmente lento dos destinos da biblioteca? Por isso, este livro que marco, mais que ao corpo, fala em sua imprecisão de leitora, não menos que os meus desejos vagam numa prece estranha a encontrar quem aceite de minhas mãos o que elas não carregam. Tomando por empréstimo o fracasso de minhas obras e as de minha predileção. E tendo quem as ame, quando não for possível a mim.

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Sim, a música. Como tudo também tem som de chuva hoje. Janelas molhadas. A tarde que segue suave, mas maciça como uma nuvem escura. E nesse breu que não é a noite, deposito meus olhos. De ouvir tanto. Forma-se a imagem, música incidental. Memória que ainda. Não vivi.

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Canto para Artaud

Pessoas à maneira
de obras de arte,
suas substâncias.
Subjéteis porosos –
homem-argamassa,
mulher-têxtil;
os que não se atravessam,
da classe de metais:
almas blindadas.
Obras ao modo de pessoas –
bronze másculo,
mármoreo ventre,
enfermiço;
um torso para se abraçar
a cores virulentas.
Vida-obra, obra-vida
homem, homem.

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Meta-abismo

Configurar o êxtase –
o poema é um antipoema
que o homem escreve
na pele de seu abandono
papel que escava e delira.

Triste espetáculo
do qual se sabe:
atinar o nada
resvalar o nada
na torrente de enganos

deixar que floresça
mais homem, mais palavra
– sem que feneça, a mortalha
não ameaça os sonhos
com que a vida se lavra.

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Todo mundo tem um rosto
– ou deveria ter.
Por óbvia, a assertiva
se lamenta de sua conclusão.
Que tudo tem em que se diga:
eis que sou.
Ainda que por qualquer onde,
a quem perdeu a cabeça
e não tem mais a promessa
de liderança alguma
sobre si.

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