poesia

Sevícia

Não, não dizer palavra.
Nada que assente ao desgosto
seu ar vitorioso
(deitar a sete palmos
setenta nomes que não tocaram).
Há quem ao redor de um muro
escape pela porta da frente;
há quem meta todas as grades.
A quem falta o mal
ou o mal prodigaliza:
mata pelo devaneio
a que chama memória,
reino de um império extinto,
– antes, não havido;
renome de matéria nenhuma.

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Todas as casas me violaram. 
Deponho elementos ao andar. 
O tempo é de desamparo, chão de rodas; 
patas e estradas são flores que não vicejam. 
Mas ando como se me encaminhasse ao paraíso. 
Aos meus pés, a vertigem dos seixos, 
a aura afogada dos rios.
O ninhal dos ventos consuma seu voo
desfazendo as minhas pegadas.
Na terra em que não piso,
quero construir minha morada.

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Cicios

Aquela hora em que dizer é o enfadonho exercício da solidão.
Então calar como quem abraça.

*

A solidão vai nos devorar com sua primeira mordida.
Ou a vida rezará por tuas mãos para afastar o quebranto.
Ser de novo alguém cuja palavra não cabe na boca.

*

Mas o préstimo da palavra é perdê-la.
Dizer o essencial: abismo, abismo.

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O corpo artificial

Se tento usar a memória,
recebo imagens transtornadas:

Cegonhas da infância
apascentam leviatãs
que devoram a história

hobbesediada.

Todos contra todos.
Recordar é nome altero,
um corpo artificial

ao estado da natureza humana
que deflagra amor e lembra
esse mesmo corpo que se dilui

e se usura
sob a política da vertigem.

Contrato de horas, imagens e páginas;
pólvora no pálio dos olhos;
viver é uma invenção autoritária:

lembra que o branco em guerra
mancha de imprecisão.

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Falar pela boca do poema

é, não ainda, o uivo
mas o toar do vento,
que emudece o bicho,
e faz o amor do homem.

Até que por onde rasgue
a garganta pelo corpo do pássaro
com seus lábios de asa, beijá-lo.

Pela boca do poema,
onde boca já não há,
e todos os lábios
murmurem de ti
o que a brisa soa

quase voz.

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