Tocamos no abandono. Repousados, como animais saciados, depois do abate, a existência de um devorando a do outro; o sangue sobre a cama, imaginário, testemunha da fertilidade e da morte. Tocamos na morte. Paira no cansaço, projeta o abraço. Abraçados, morremos. Como poema e como imagem. Há imagens que não se formam, despedaçam no sonho, que não cessa. Sonhamos, ausentes: homens que deitam para pensar o selvagem. Faltas, nas mãos, a cultura e o seio. O que não tocas, nomeio. Para tornar o que é(s): palavras abrindo como corpos, palavras dissecadas pelo amor. Suspensa à janela, invejo o vento: não precisa de razão. Por ela, a corrente de ar liberta-se, finda o dia; cede ao desejo de voo, infantil, mítico. Posso me jogar como uma criança, não morrerei. Posso me jogar, que morro sem temer. Meus pés não caminham, caminham pelo livro que lês. No silêncio, cortina de fumaça, chego ao teu lado. Entre o espelho e o outro, tua: desfiguração. Deitados pela tarde, como animais, sem fim nem início. Tocamos no infinito.

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