poesia

A boca é uma novena de silêncios

A boca é uma novena de silêncios;
Escala para a morte;
Oratório de pássaros
Migrantes, que cantam todas as tardes.

A boca resguarda a beleza do mundo
Do próprio mundo e o excomunga,
Atira à lama, intacto ou devastado
Minério, mar, argila, hóstia.

A boca, salina bêbada, evapora na chuva.
Residual como sonho, também é o sal
Na invisível condensação. Esculpe
A fila de espumas: mãos sobre o corpo,

A boca sobre tudo – desenha, ubíqua,
O desejo – é uma pedra que enuncia
O vento. É o vento deflagrando
Movimento nas águas.

A boca sequer sabe que é boca,
Que é carne, que é sonho. De morte.
Que arpeja pássaros na tarde
Ou que renega ou que protege.

A boca abre o impossível dentro, verbo
Impalpável de todas as formas. No entanto,
Tudo suga, tudo deseja, tudo sabe
Pela promessa do gosto.

A boca goza descomedidamente.
Suave, inexata; saliva fluente. Bruta
Ou andrógina. Boca, simplesmente.
Adere trágica. Hermafrodita fruta.

A boca lambe fálica: vulva do mundo,
Vultos na carne. Discursam
Todas as bocas, nenhuma boca.
Incognoscível, resiliente.

A boca metamórfica, metafísica.
É uma criança sem crenças.
Por tudo, abduzida. Paisagem fanática;
Abjura, beija trêmula

A boca-seio, boca-sêmen.
Boca-a-boca pequena,
Mastiga imensa, cariada
Paixão de jatos. Despeja, mas

A boca salva. Não se sabe o que,
Não se sabe quem. Onde a boca,
Quando é um rumor habitado
Por nada, canta e silencia.

A boca, a boca.

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Promessa

“Pássaros voam/pássaros tombados” (Raul Macedo)

Todo irrevogável instante.
Mas nada está perdido
desde que tudo se perde
adiante, flui

como pássaro,
revérbero do ar – flauta,
transversa o tempo.
Presente, pressinto.

Sob os braços do vento.

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