entreaberto

a primeira vez em meses que o tempo
passava sem que ela o gemesse,
dilatando-o ainda mais no corpo.
82 páginas valiam mais que um porre,
e 172 centímetros de evasão e madrugada.
os números só acresciam
o que as décadas não apaziguavam:
o rosto indefensável
dos anos, excrescências silenciosas;
o corpo crescendo denso
– buraco negro de ausência;
os meses e mortes que não vieram;
ou o fim de um poema;
ou o rosto, (n)o rosto.
um deles morreria – intocado,
como palavras num livro entreaberto.
os instantes naufragando sem fluidos;
germes inoculados; entre pernas;
o tempo sem que ela o gemesse,
virando a década e morreria.
sem que os cabelos (a) alvejassem ao todo
e o sangue do mais profundo silêncio
escorresse; o tempo, o mesmo galo estridente,
às cinco, é como o fim do mundo:
o galo engolidor de aurora e a cidade
e o corpo e o fogo de uma mulher.
onde esse galo canta, meu deus?
urbano; desespero de patas.
de quatro em quatro, poemas uivam
e crispam o silêncio. o silêncio:
indiferença? dor? os 2.
número que não cabe na sobra dos dias
sem o gosto de um gesto humano,
nem o rosto, nem o lastro;
quarto surrado, os pés tão puros;
o livro entreaberto, a vida,
maré sem data;
o sorriso inválido.

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