Há quantos anos te deitas com a velha agonia,
mais do que com todos os homens e mulheres que te beijaram na vida?

Acutilada, a existência destas marcas no teu rosto (nos seus rostos);
as invisíveis sequelas. Persistem, ulteriores.

Derramarão. Desde o ventre, renascidas. Como que por tuas mãos
no teu parto, desgarrando o mundo. Face a dor, grande dor.

Porque em todas as mãos há deuses desta história antiga, povoada e vazia.
Os deuses não dormem, não permitem que partas.

A tarde morta, o frio.
Ciclos, caminhantes.
Tremeluzem
no centro da falta.
Fala – o corpo
obscuro do grito:
o silêncio – gradua
a sombra das horas.
Sobretudo, aquiesce.
Como quem consente
a beleza, o fogo, a morte.
Então arrepia.
E então, cala.

entreaberto

a primeira vez em meses que o tempo
passava sem que ela o gemesse,
dilatando-o ainda mais no corpo.
82 páginas valiam mais que um porre,
e 172 centímetros de evasão e madrugada.
os números só acresciam
o que as décadas não apaziguavam:
o rosto indefensável
dos anos, excrescências silenciosas;
o corpo crescendo denso
– buraco negro de ausência;
os meses e mortes que não vieram;
ou o fim de um poema;
ou o rosto, (n)o rosto.
um deles morreria – intocado,
como palavras num livro entreaberto.
os instantes naufragando sem fluidos;
germes inoculados; entre pernas;
o tempo sem que ela o gemesse,
virando a década e morreria.
sem que os cabelos (a) alvejassem ao todo
e o sangue do mais profundo silêncio
escorresse; o tempo, o mesmo galo estridente,
às cinco, é como o fim do mundo:
o galo engolidor de aurora e a cidade
e o corpo e o fogo de uma mulher.
onde esse galo canta, meu deus?
urbano; desespero de patas.
de quatro em quatro, poemas uivam
e crispam o silêncio. o silêncio:
indiferença? dor? os 2.
número que não cabe na sobra dos dias
sem o gosto de um gesto humano,
nem o rosto, nem o lastro;
quarto surrado, os pés tão puros;
o livro entreaberto, a vida,
maré sem data;
o sorriso inválido.

Manhã

Uma luz de afogado penetra o corpo
Silencioso o quarto como a bruma.
Um homem, menos que alma, o porto
Sem mar em que um poema apruma

Suas réstias; venceu a noite.
Mas, como o dia que jaz inerte na varanda,
O frágil azul – se fez açoite
Do canto que não veio, nem a ciranda.

Alonso, alucinas

Cavaleiro andante, máquina de sonhar, estivais te vazam
sol, o sal de horas. Alonso, alucinas. Infantaria antiga-donzela.
Prescreves os moinhos, esmagando tosses e ternuras gordas
que esmurras no vento – só – o tempo te erige, monstro secular.
Nos banquetes de fome, nos desertos, orbitam hordas
que erguem teus túmulos; páginas e páginas, bibliotecas que duelam.
De há mares de menino: cheirando entranhas de delírios,
lombadas de amor; o combalido nome que lês enroscas nas patas,
Dulcineiamente cavado nestas palavras brutas de poeira
– terras encasteladas e orifícios por onde vergam
corpos de sobrinhas, escudeiros, adversários.
Ronrocinantes fantasias – no intumescido coração
que, com fé, teimo ainda em ver na direção do vento.