Movimentos

“Que demônio mais versátil!”
Raduan Nassar

As cordas – este corpo – tocas
com as notas nos teus dedos;
matéria acústica, madeira de ventre
ressoam o movimento.

Mistério que preenche, vazio por vazio,
a cadência de sangue.

Pressentes as imagens na substância da caixa;
qual Pandora, insubstancial, sobre a cama,
em pestes de aço, que avultam, cantando.

Gemes, na cegueira com que, versátil,
o teu demônio dança; ventre
tangendo o punho do metal;

dedos em pestana, rugem
rangendo no solo
pés de improviso.

Retorcem, dilatando, no exílio,
os rastros de Mnemosine,
para a língua dos sons.

Tocas um corpo e toda uma utopia.
O imaterial; mas a matéria de teus dedos,
mas o teu movimento; mais, o som
deste mistério, como um símbolo

a devorar no silêncio; caminhas
como se inventasses uma alma;
lúcido, no mito órfico, tua música
me vislumbra, na fálica predição

ou nas cavas, tantas vezes
por vir; quando tocas nas cordas
a semear neste silêncio, morro,
sem que ao menos olhes para trás.

Eu que te ouço, desde a música
sou a mulher. E trágica libertação.

Volvemos, cada qual, ao seu redemoinho,
cansados de labirintos, como se soubéssemos

adivinhar o início furioso
e convulso do toque ancestral;
antes da exaustão concêntrica
e subterrânea das ondas.

Agora, em cantábile, amansando águas,
como se mudassem referentes,
só que os deuses lembram os mesmos ecos

da força mítica de tuas notas;
apenas migraram instrumentos
no meu corpo imemorial.

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7 comentários em “Movimentos

  1. Oi, Roberta.

    Foi um dos livros que conheci na adolescência (14 anos?) e sempre esteve comigo. No entanto, confesso que sou muito mais apaixonado por Rayuela – que me levou a desconcertar totalmente a vida. Acompanhado de Lavoura Arcaica e um poeta que cita em outro post seu: Maiakóvski.

    Como comentei da outra vez, vou voltar aqui sempre.

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    1. Obrigada de novo pela leitura. “Desconcertar a vida”, como disse, é algo muito bom (necessário), no sentido e na forma. Obrigada pela leitura, pela presença. 🙂 Seja sempre bem-vindo! Bjos.

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  2. Coreógrafa e musicista, puseste a poesia, num ritmo alucinante e bem teu, para dançar.
    Sente-se, com esse “migrar dos instrumentos”, como o corpo do poema vibra diante dos nossos olhos.

    Ninguém ousa pronunciar os versos sem que a língua estremeça como cordas…

    …e tua voz, poeta, é a potência da sensibilidade as rompendo.

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    1. A linguagem como esgarçamento da expressão, do som. Ritmo, dança. Estremecendo a língua como cordas. Seu comentário é belíssimo e generoso, Katy, como lhe é próprio. 🙂 Beijo, obrigada!

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  3. Roberta, vi que você deu uma passada no Parlapoema… resolvi fazer uma visita ao seu… seu retrato poético impressiona… parabéns, pela elegância viceral da sua linguagem!!!!!

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    1. Angela, bem-vinda. Obrigada. Eu fico realmente feliz por estas palavras generosas: “elegância visceral” da linguagem. Que bom se tiver conseguido atingir algo próximo a isso. Beijos.

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