poesia

Fugaz

Fugir de todos os poemas,
escrever cada canção
desacontecida.

Deitar horizontes
na velha cama
sem jornada.

Noite e dia,
forjar palavras
no mar sem dono.

Voz a inaugurar
(n)o vazio
mesmo

com que se toca,
quente, palavras
como arrebol.

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A imagem

Sentada no meio-fio,
Ria a tua imagem – e semelhança.
E era uma sombra iluminada
Por algum ocaso, lembrei.
Não parei, porque corria.
A memória, o carro ou…
Vindo, tua imagem.
Por isso, passei rápido, sonhando,
“Por isso eu corro demais”.
Não dirijo, nem sonhos sonho
Uma ausência real, porque sonhada.
Não senti senão sonhando,
Todos estes anos,
“Só pra te ver, meu bem”,
Neste beco, atravessada, nesta cama.
Mas houve um ano, esse ano foi teu.
Vermelho como o cabelo.
Em um mesmo artifício, tingida eu
Do fulgor adolescente.
E um filme horroroso!
E os berros, espanto fingido
Para o desfecho de um beijo
Ao lado de um piercing.
“Navio-fantasma” – como a alma
De um corpo atracado,
A boca exalando rosa.
O cheiro de um pescoço
Esganado pelas mãos.
Que clicam, clicam
A máquina do clitóris.
Fotos, mais fotos,
Photoshop no amor.
Vermelho, icterício;
Idade do ouro.
Exuberávamos nos becos
Cheios de contrastes, andávamos
Por estas memórias gloriosas,
Neste futuro insólito.
Como tua imagem. Eu vi,
Rindo na Travessa do Ouvidor.
Houve. Ouço. Não esqueço.

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Movimentos

“Que demônio mais versátil!”
Raduan Nassar

As cordas – este corpo – tocas
com as notas nos teus dedos;
matéria acústica, madeira de ventre
ressoam o movimento.

Mistério que preenche, vazio por vazio,
a cadência de sangue.

Pressentes as imagens na substância da caixa;
qual Pandora, insubstancial, sobre a cama,
em pestes de aço, que avultam, cantando.

Gemes, na cegueira com que, versátil,
o teu demônio dança; ventre
tangendo o punho do metal;

dedos em pestana, rugem
rangendo no solo
pés de improviso.

Retorcem, dilatando, no exílio,
os rastros de Mnemosine,
para a língua dos sons.

Tocas um corpo e toda uma utopia.
O imaterial; mas a matéria de teus dedos,
mas o teu movimento; mais, o som
deste mistério, como um símbolo

a devorar no silêncio; caminhas
como se inventasses uma alma;
lúcido, no mito órfico, tua música
me vislumbra, na fálica predição

ou nas cavas, tantas vezes
por vir; quando tocas nas cordas
a semear neste silêncio, morro,
sem que ao menos olhes para trás.

Eu que te ouço, desde a música
sou a mulher. E trágica libertação.

Volvemos, cada qual, ao seu redemoinho,
cansados de labirintos, como se soubéssemos

adivinhar o início furioso
e convulso do toque ancestral;
antes da exaustão concêntrica
e subterrânea das ondas.

Agora, em cantábile, amansando águas,
como se mudassem referentes,
só que os deuses lembram os mesmos ecos

da força mítica de tuas notas;
apenas migraram instrumentos
no meu corpo imemorial.

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