O tempo vive…

“O tempo está vivendo-me” (Borges)

O tempo vive, impronunciável.
Tu também não o dizes,
Em silêncio, lábio,
Contracanto da destruição.

Vive o silêncio. Escutas?
Não o há. Teus nervos, o tempo
Em mim, som do quanto ressoa
O peito, mesmo calmo, galopa na tarde.

Ruído branco; recebe
Ondas, contingências tonais
Da carne; um silvo;
Arrepia ao teu chamado.

A casa: transparente,
Um hiato intocado.
Respira no tempo,
Intervalo de espelhos.

O poeta me diz. Cego,
O instante me abre
A imagem da tempestade;
Canais de água

E rumor da tua aparição.

Do tempo, espero…

Do tempo, espero
A nudez de um corpo;
Transformado em espaço,
Um rosto.

Imagens que deponham dias,
A estudada geografia
De um torso
Exausto,

Sonhando tocar
A simultânea ausência,
Região do mais etéreo encontro:
Eu, o tempo; tu, o espaço.

Povoaríamos a casa
Com a nudez das paisagens
Sem paisagens,
Coexistindo no absoluto

Silêncio destas memórias:
As palavras, sem palavras.
As mãos de colher mentiras
No dorso da história.

Puro movimento:
Percorrer o desejo;
Somos, teríamos sido
A casa, farol de doenças.

E o riso que déssemos,
Rasgaria o tempo, recuperando
O que talvez tenhamos sido:
Simples, como a morte.

Teu corpo ou tua casa
Mediriam os caminhos.
Morrer, à sombra da origem,
No teu lugar, todas as horas.