Fluido trabalho

Chegou a chuva, chegou aos olhos.

Cristalina lástima que empenha

o suor da face.

Não houve jeito: ser tão irrigado,

descomedido canal,

fluido trabalho por dentro de cavas.

Lacrimais soerguem os seixos

de produzir paisagem.

Esta pedra de perfídia

insemina o mundo das aves;

sobrevoa o tempo

vaginado.

No ventre de olhos,

embocadura de nuvem;

lambe sempre a derramar

impossíveis caldos

fatigados.

5 comentários sobre “Fluido trabalho

  1. Beta, no Face tu comentava que a minha poesia tem o milagre do sangue; na tua, vejo o milagre do sopro…

    Aqui, há uma comunhão secreta de líquidos, “lacrimais soerguem os seixos / de produzir paisagens”. Mas ainda hei de aprender como é que tu consegue fazer a coisa ficar assim, tão delicadamente sutil e furiosa. É um ‘terrível-suave’, como li certa vez em outro poema teu tbm, cujo nome agora não recordo.

    “Insemina o mundo das aves”.

    Realmente quero ler essas coisas todas em livro. Um grande abraço e beijo, conte comigo,
    Mar

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  2. Essa sequência de imagens que se sucedem ficou belíssima. Da chuva, à face, aos canais, à paisagem/pedra de perfídia no mundo das aves que sobrevoa o tempo. Nos olhos, a embocadura que a tudo assimila. Fuido trabalho escorrendo também pro leitor.

    É sempre muito prazeroso te ler, Beta.

    Beijo.

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