Fluido trabalho

Chegou a chuva, chegou aos olhos.

Cristalina lástima que empenha

o suor da face.

Não houve jeito: ser tão irrigado,

descomedido canal,

fluido trabalho por dentro de cavas.

Lacrimais soerguem os seixos

de produzir paisagem.

Esta pedra de perfídia

insemina o mundo das aves;

sobrevoa o tempo

vaginado.

No ventre de olhos,

embocadura de nuvem;

lambe sempre a derramar

impossíveis caldos

fatigados.

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Quando nas praias…

Quando, nas praias, o alvo

é o imenso deserto.

Branco da espumareia:

insonoro oásis, sem fetiches,

sons desvanecidos.

Pálidos, os corpos submergem

na inaudível paisagem

desabitada dos sonhos.

Áridos, os sonares emitem

surdos encontros.

Lendo René Char

As feições só podem ser de espanto, martírio e gratidão lendo os poemas de René Char. Eu, avultada em seus arquipélagos de fúria e mistério, com as palavras do mundo ao alcance do mundo das palavras. Um dilúvio carregado por Contador Borges, o tradutor-poeta, que conta-gotas da tempestade para o caudaloso rio da boca. É qualquer bem de asperezas, único, de vertigens, contra-enigmas. Eu leio e sinto súbita vontade de dizer que amo e morro (“se morres, ainda amas”). Pego o telefone para dizer o que e a quem? Depois, ainda febril, mas lúcida, grito estes silêncios de partilha. Que notícia secreta é esta que alardeio com o mais calado fulgor? Encontro (“semeio de meus dedos”) as palavras:

“Diamante cujo fulgor não se sabe ao certo até quando (ou até onde) dura, o poema, no entanto, assombra e instiga porque também possui essa capacidade de continuar em outros poemas (e poetas), puxando assim seu fio e o atando alhures, à maneira de Ariadne, ou amalgamando ilhas, ecos, lampejos, como os arquipélagos de Char” (Contador Borges):

“A poesia é este fruto, maduro, que apertamos na mão com alegria, no mesmo instante em que ela surge com o futuro incerto, dentro do cálice, na haste gelada da flor” (René Char).

A água dura

A água dura na memória
Da parede insólita;
De anos da insônia, água
Da parede indômita.

Sudário de tinta:
Á água corre
Dos canos; vaza
Dos ossos incômodos.

Exsuda três metros,
Pé-direito-horizonte
Com vista para o ar
De abandono.

Empedra no peito
Líquida e velha corrosão,
Infiltra o cheiro de mofo.
Desosso; estufa a parede,

Desaba, esquartejada.
Mas o problema,
Se bem me lembro,
Vem do andar de cima;

Pela água do vizinho;
Pelo outro, inquilino;
Pelo amor
De Deus.