(dadaísmos)

Você que é leve como chuva ácida; sulfura buracos no ozônio. Estufa um salto de asa-delta sem asa-delta: asas de chumbo. Rumo ao sol.

O sol quer o meu câncer. No fogo, carrossel de Apolo, inferno siberiano: arrepio que me causa a trinta e seis graus, terceiro milênio.

Polução devasta o planeta inundo. Roçados onde os seus desamparados. Peito, pentelho. Baba por fazer; bagunça no enredo.

Éclogas, ecologias. Dilúvio e carnaval. Mais de sete bilhões de palhaços no salão.

Chove no ecossistema das pernas. Chove sangue. Na calha onde sua chuva de enxames arrebenta a minha cara. Conto as gotas num buquê estridente.

Bebo o arroio dos olhos. Bebo tudo. Ébrio peito sanfoneiro, resfolega a lira suntuosa.

Uns minotauros machões. E abelhinhas transtornadas sobre o manjar dos deuses: as crianças. Faz dodói na pele-labirinto.

É um belo momento: eu me afogo na enchente e chove. Rio, de ainda morrer, Amor.

Tardio

Mito –

Dias da espera.

Medusas

Em fronhas

Desgrenhadas

Acordam tarde. Sagas

Por mechas de teus cabelos;

Serpentes e pedras

Na carne que é o tempo,

O tempo.

Perigo

Decapitar horas,

Teu exército

Esplêndido

Do talvez.

Marítimos

I.

Porque és um corpo

E me afogas.

Todo um oceano

Arrastas:

Redes, vertigens,

Peixes, voragens.

Porque o teu anzol

Lanceia minha fome;

Tua isca,

Meu beijo rasga.

II.

Estiolam meus cabelos

Que não ventam

Nos teus olhos

Arremessam águas.

Furam meus cardumes de pedra.

III.

Teu corpo obcecado

Vence a matéria de rochedos.

Deito na pedra;

Quebras com sangue,

Por imaginá-la.

Acaso meu corpo,

Essa espécie de água

Viva em que ardes

O flagelo das algas.

Dezembro

Dezembro virá,
Velando palavras
Colhidas
Há três décadas.

Pensarei em morte,
Delito, agonias.
Árduo nascer;
Vou conceber torturas.

O dia não veio,
As notícias são velhas.
Só a angústia
Metralhou a tarde.

E esse frio na cidade,
Homenagem aos poucos
Que lambem vento,
Se arrepiam.

Dezembro virá
E espumas na boca.
Brindarei com a raiva
Solar de loucos.

Mas teu rosto cobrirei
Com a ternura
Afogada dos meses
No decurso do espelho.

Ainda

No silêncio: compasso de solidão.

Depois que a música (me) acaba,

Fazer o sem-lugar onde desvio

Linguagem e desejo.

Fremir de ondas

Entre mim e canção,

Escrever as pausas de outra:

Mais sutil, de sombra.

O que eu não toco: pertença minha

(toda escuta, posse).

Onde não sou e não tenho;

Até que ouço, simplesmente.

Presa por vontade

De escutar o que é livre:

O inalcançável movimento

Do mar –

O chamado:

Palavras instigando ondas.

Ouvir o tempo insondável

No mesmo silêncio de corredores e sótãos.

Menina, lia. Escutava Quintana

Onde todas as canções comandam a nau

Apinhada de meninos mortos.

Terrível-suave.

E virgem. O silêncio virgem.

Ocupá-lo com desejo e memória,

Violentá-lo. Se tento calar,

Bebo o tempo: nau frágil.

Um ponto afogado e luminoso da escada,

Perto do peito: o porão do prédio.

Sou eu, um barco ainda ouvindo em segredo.

Degredada em sombra.

Um buraco de luz; deixada pela canção

E pelas brechas nos tijolos.

Abri a porta para o vazio.

Veio a rebentação. Nem perto o mar.

Os vizinhos não sabem; suas casas quando acendem;

Luzes me arrebentam faróis no peito.

As cortinas me abrem. Não saí do quarto.

Tudo veio à voz, depois da voz, minha voz sibilante.

O corredor ainda grande.

Meu sem-lugar: linha do tempo.

Tento uma ausência. Tudo lembrando.

Imagens correm, três delas, ardendo.

O novo. Arrebenta o novo. Oscilações de novo.

Até mesmo no fogo. Tudo são águas.

É um estar-se preso, realmente

(como no amor).

Quem ouve o silêncio, sem fim,

Devorando quem canta,

Move o sagrado, morre em mim.

Não só leveza. Todo instante é um corte,

Toda delicadeza funda o sal na voz

E um corte sempre fala ao dentro.

Arde o vigoroso.

A carne não é rente;

Requentada no sangue, vem antes

(na alma do que não fomos).

Nos afogamos.

A palavra, aprende:

Vai fracassar.

Como a música, seu fim.

Um tempo de mortes, no sempre.

Mas não enquanto:

O canto.

 

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Na leitura da poeta Lara Amaral: