digressões do sentir, enternecimento

O mapa que ninguém cartografa

(à deusa do mar)

Quem pode mapear o coração humano, enquanto seu dono estende os braços sobre o mar, se a poesia também é feita nestas mesmas águas? E quem, mesmo que pudesse, saberia explicar a alforria no peito que celebra o selvagem mistério líquido e salino, senão pela vertigem do crepúsculo, caiando nos azuis o dourado? Os pássaros da hora, insondáveis. Portanto, quem sabe do que é capaz um pulsar nas nuances entre o verde e o vento? E quem em frente ao mar não beberá de sua sede, afogado em memórias, nadando vertigens por dentro de ondas? Ainda que muito se lembre quando fundo se mergulha, ou que se mire a linha do horizonte, que é então o futuro, muito pouco se sabe. Traços imemoriais da certeza das águas, sulcando as pedras do Arpoador. Na morada de Iemanjá, rainha que se apodera dos corações dos poetas, o sacramento prescinde de tempo. Apenas o presente bate nas pedras a sua viva água de possibilidades. Arqueja. E pulsa como quem aprendeu que a voz do mar tem dono, e canta como é doce morrer embalado no ir e vir das vagas, no perfume indomável da maresia. Quem, pois, se perfuma de maresia, fadado está ao impermeável dentro das paixões. Conchas e pérolas que adornam a solidão de eremita. Só que no mar não há penitência, há beleza, mesmo furiosa e cruel. O resto não se diz porque tinge de sangue o branco da areia. Mas se sabe a vinho, a veneno, que as redes pescam os enigmas da fome. É de fome o coração do poeta que se devora no mar? É sangue o que o arvora, braços suplicantes de sol, tudo querendo abarcar? Enigma, que no murmúrio do verão, fez do mar mulher, no dois de Fevereiro. Vento ou segredo o mar de uma mulher? Peito ou palavra na sede do sal? Alforria de vento ou de memória? Quem mira a linha do horizonte não sabe mais se rainha ou se poeta. A linha do horizonte não separa o dentro cujas águas dão ao pescador os caminhos da solidão. O mapa que ninguém cartografa, nenhum humano coração esquece; oferenda maior, grande como numa canção à deusa do mar.

Maria Bethânia – Yemanjá Rainha do Mar {álbum \”Mar de Sophia}

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10 comentários sobre “O mapa que ninguém cartografa

  1. Beta, teu texto-mapa de ser não traduzido, mas sentido; convite a um marulhar; traço em que a linha do horizonte contorna palavras fazendo hibridismo entre a deusa-e-poeta.

    MARavilhoso!!!

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  2. Roberta, gostei muito das suas páginas, principalmente sua forma de descrever as coisas.
    Realmente há tantos mapas que ninguém cartografa… principalmente aqueles que se fundem nas veias que irrigam nosso coração.
    Abraços

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  3. Beta querida, estive afastado por um período, mas já estou de volta com muita sede em frente ao seu mar que me inspira e fascina!!
    Aqui na Bahia a festa de yemanjá é saudada com muita fé e devoção e é bonito de se ver! Quando quiseres vir a Bahia, as portas estarão sempre abertas para ti e tua família!!

    Beijo enorme!!!

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  4. Roberta, depois de ler o teu post umas 3 ou 4 vezes, fiquei de boca aberta de admiração.
    Nem sei bem como te hei-de dizer o que penso… mas vou ser direto e sem rodeios.
    Mas espero que não fiques perturbada…
    O teu texto é tão bom, tão bom… que até duvidei que fosse teu. Pensei que fosse de algum autor consagrado e fiz uma pesquisa (desculpa, mas o que escreveste é mesmo excepcionalmente bom). Já li, por exemplo, crónicas do Paulo Coelho muito inferiores a este teu texto.
    Exagero meu? Não, minha querida amiga. Leio muito e, textos deste tamanho, leio-os semanalmente em várias revistas e é muito raro chegarem ao nível que aqui chegaste.
    Não sei mais o que te dizer… olha, escreve, porque se tu não fores escritora dentro de pouco tempo, mais ninguém o vai ser…
    Querida amiga, desejo-te um bom fim-de-semana.
    Beijos.

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  5. Ah, Roberta, não sabes que é perigoso estar no mar a dar ouvidos às sereias?

    Antes eu pensava que ouvir Bethania na praia era um içar de velas brancas, flutuações de jangada…Mas isso foi antes…antes de ela chamar o vento…antes de ela ancorar fundas tempestades em mim.

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  6. meuparedro disse:

    Tive umas semanas de terapia marítima e mais que nunca sei que sim,
    uma consciência lavatória com todos os descalores e fricções que o termo
    pode ter. O mar lava a gente. Sacode um pouco, tempéra, emulsifica.
    E as coisas da alma ficam um pouco melhores prá trabalhar, distender, ver qual
    é que vai ser.
    Beijo, Beta.

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