poesia

Lição de música

Na fila dos sinônimos,
Adjetivos torvos carregam
O sombrio guarda-chuva:
Macambúzio; embezerrado;
Sorumbático; carrancudo;
Só que, meio infantis,
Contradizem, forjando
Levezas quase onomatopaicas.
Tem-se que: dissonância
Pode ser música.
Acordo de cavalheiros.

[Keywords: Teofilo Tostes Daniel, Schoenberg, Aurélio].

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poesia

Como palavra

Palavras, evocações que faço
Beberagens do desconhecido
Sob a areia dos meus pés
Fortuitamente, o delírio.

O jorro profundo o silêncio
Seminal do indizível
A liturgia do poema.

Clivada de oculto, não meço
Que levo uma espécie
De vida dupla, movediça
Transubstancio-me na coisa

Da lida da lira.
Como palavra me abro
Ao rito vertida.

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no referente

[matizes, seminários]

Digo agora que mal tolero os seminários. Me acomode numa cadeira, suaviza dizer o que há pra viver. Mas é a reverberação da voz nos olhares. Tudo se tinge de “deu branco”. Matiz do atordoamento que me faz sincopada. Espécie de purificação, ou o seu avesso: nu de dizer que não sei planejar. Que assim não faz sentido. Um tipo estranho de rosa quer conhecê-lo, só que por dentro do silêncio: no perfume.

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poesia

Libelo

Um libelo, a existência
Teço agulhas como quem
Espreme espinhas
A minha mão é uma flor
Exprimo voos de libélulas.

Doutrinar os estóicos
Com as desgraças do ciúme:
Peco mais por me deixar vagar
Tão neutra como quem se perfuma
Sem dono, o meu corpo é um pórtico.

Estupidez proeminente
O êxtase secreto
De burlar as regras
Um abandono, profunda alegria
De protozoário no universo.

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