Filhos Simbólicos

Eu só vi os pés jogados daquele outro filho simbólico. Foi o que ela falou: “os meus dois filhos simbólicos“, com ar de quem ia chorar, a boca contendo o fundo lacrimal dos olhos, mas nenhum disfarce; dona de seus afetos, o maduro afeto de uma mãe consternada.

Naquele instante pousei meu desejo de ver o outro filho simbólico; virei filha e outra, num mesmo átimo. Pensava ser só alguém que dizia – de um modo ávido, desaforadamente frágil – o meu não saber dizer coisas, quando encarada, o meu pescar de outros antes de mim, fiar os alheios e me sobrar a solidão dos novelos. Filha simbólica? Não tanto. Tanto assim.

Talvez alguém a quem se admire por certa persistência – como posso chamar o fundo a que se vai, a beleza dos francos sorrisos imbecis –, para além da inaptidão: graus de alerta e um desgaste, um cansaço. Escorregadias superfícies que, mesmo assim, levam: querer, permanecer, não sabendo como. Delicadeza de dizer furacões; assim acostumei a ser, delicada fúria.

Era o que eu acreditava ser para a minha mãe simbólica, um alguém a quem se quer bem, pelo bem que se quer a alguém. Sejamos francos, um pouco mais: porque me soube, e soube me olhar. Foi apresentada à introversão, enfatizou a vivacidade. E porque respeito-mútuo, troca e confiança, razões capazes de nutrir um raro bem-querer, mas que exime a carga afetiva de mãe e filho.

E havia, além de mim, que nem me sabia filha, o filho que eu nem conhecia – como irmãos meus que não sei, numa outra história, que agora não meço. Fraterno que se divide comigo num coração, espaço de um afeto que nasceu com hora marcada: toda quarta pela manhã, pouco depois das nove horas, mas que se imensificou.

Talvez, como eu, tenha frequentado os mais diversos horários no decorrer de uns cinquenta meses. Já vi os poentes, o negrume da noite, a manhã de inviolável beleza. Tudo num acordo, por telefone, o canal fático abrindo místicos espaços. A sala a minha espera, a fim de arriscar os meus motivos; dentro, uma mãe simbólica, que soube decifrar o lastro de umas razões muito bem postas – quase nunca foi disfarce, o quanto me custa desarrumar à vista de outros! –, antes que as contundentes lágrimas caíssem.

Não sei se ele, hoje eu acordo mais cedo, como o contínuo, no meu desejo, de uma ação que não perece, mas que se exerce semanalmente, por enquanto, ou numas raras ocasiões em que o sublime vem me acordar. No mais, insônias, que me despertam numa média-manhã (a medida da manhã que me permite seguir com rotina).

Toda quarta consigo vencer a dobra dos sonhos que me arderam, me acordaram – fui capaz de dormir? –; invado ruas com bocejos, caras famintas, meus silêncios, resgatando o mundo com os olhos, como se o último e o primeiro dia.

Caminho, vivendo o clichê, uns quinze minutos, mudo os percursos para fugir do tédio: longamente pela minha rua, viro ao final, ou faço logo um ziguezague nos primeiros quarteirões. Mas lá na frente uma reta sempre me leva ao prédio de esquina: quinto andar.

Abro uma primeira porta, sento no sofá em que hoje se largou meu irmão; às vezes, folheio antigas revistas; espero sonoramente em alguma FM; bocejo de novo; cavuco a pele; se espero muito meu coração dispara; reparo as unhas raramente feitas – vai do gostar do nu que nelas há, cutículas quase ínfimas.

Depois, vem a terapeuta; e aí um segundo sofá, na sala dos motivos expostos – sei que começa a batalha da primeira fala, no primeiro gesto. Sorrisos me vestem, olhos vasculham paredes; a pergunta que ela faz é quase sempre a mesma, mas tamanha a carga do afeto. Eu também cotidiana nos meus comentários, generalidades que depois se desdobram – ela os interliga com especial talento.

Tantos dias. Especialmente os calmos, quando tudo flui, esqueço da escrivaninha que me faz paralelo – ocular rota de fuga. Só que hoje estava com frio, nada me ocorreu. E como acredito nas interligações despropositadas, porque vejo como é possível relacionar os mistérios e os despautérios – mais ainda, como é possível abraçá-los –, por isso, escrevo: eu estava com frio e nada me ocorreu – como que perseguindo subtextos.

Hoje foi por meio de rupturas que se deu o que tinha que se dar. Atravessado o deserto do primeiro texto, quando vinha o subtexto, era preciso levar a almofada lá na ante-sala para o simbólico; o meu irmão queria se recostar, pois não estava bem. Se não fosse atendido logo, poderia entrar. Pausa, cuidado. Ela voltou preocupada em se justificar: uma nobreza, uma oferta de palavras, um olhar imponderável de mãe consternada.

Então a frase que acendeu tudo: os meus dois filhos simbólicos. Assim dois. Assim filhos. Simbólicos. Quase o choro, lá e cá. Eu sorri com ar cavado, permiti uma expressão que não sei bem se grata, se assustada, mas esvaindo para uma vivência nova, bonita que só.

Despertei do torpor do afeto com a minha curiosidade de imaginá-lo: velho, homem ancorado no tempo; gordo, cansado da vida. Fácil categorizar aparências. Talvez quase idosa, quase bondosa, uma mulher; virou menina, sofre porque ninguém mais repara como são bonitas as mechas do seu cabelo.

Não sei se a curiosidade foi maior que o ciúme. Não me dava conta de nada. Vivi até o que me foi dado ver na saída. Um par de meias vestindo pés cansados, num conforto desesperado.

Não imaginava menino, assim tão vindo da primeira infância, pouco mais que um moleque. Eu nem vi. Jogado no sofá da sala de espera, perscrutei seu contorno com minha visão periférica. Não vi mais que uma cabeça recostada – não medi seus desamparos, não categorizei suas aparências. Não queria incomodá-lo com minha curiosidade, mesmo do alto do meu ciúme. O dono dos pés parecia um grande náufrago, mesmo que menino. Recostado, com um jeito morto, ardia. Possível?

A esta altura, adentrou a sala, sobre ele os olhos da grande mãe, na ternura quente, cheia de símbolos com que a terapia lida: O homem e os seus símbolos. Continuo vendo até agora, já me passaram as árvores, já me voaram as nuvens, o livro quieto em sua estante, enquanto a mãe salvava o menino, menino e livro com um jeito recolhido de décadas. Enquanto eu esperava, alguma coisa a acontecer, eu sabia que alguma coisa estava para acontecer. Fixei Jung, Freud, muitos outros nome. Um livro, uma mulher, e os nomes da sua formação.

Eu desejei lhe falar do livro, assim que ela voltou, enquanto nada me ocorria para dizer. Um jeito de pôr os olhos com muita fundura, eu me perco sem saber se há ponte. Olhei para a janela, para a escrivaninha – naquele calendário já decorreram séculos, tanto o encarei.

Não, não me interessam os séculos. O que eu vivi se eternizou no denso presente. Ali, ela me olhando, antes de dizer a simbólica frase. E eu tinha acabado de ler na estante: O homem e os seus símbolos. Lá fora, um menino com jeito de morto, ardia.

Foi na saída para a rua que eu entendi o chute silencioso dos pés do menino – era altura de menino, pés de menino, meias de menino. Mas era dor de homem. Eu senti que vontades? Resgatá-lo dos confins de si.  Torná-lo meu irmão. Ou meu símbolo?

Sei que tudo me atinge de um jeito arredio e feliz, como se um chute de um menino. Porque a vida se encarrega com seus silêncios de me dizer muito mais do que é visto.

Toda uma vida cansada naqueles pés. Tênis jogado, como se joga a filha que não se quer; da janela, de um berço, para fora de uma casa, de dentro de um peito. Arranca-se, encarrega-se de se desnutrir de amor até a morte. Mas aí, a mãe. O símbolo. O que eu não sei é que tudo isso…

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10 comentários sobre “Filhos Simbólicos

  1. Li tudo de um fôlego só, com lágrimas nos olhos e uma “coisa” dentro do peito. Os sentimentos transbordam de seus textos, atingindo-nos em cheio, emocionando, doendo até. E essa mãe, que bem sei quem é, acho-a tão grandiosa como você. Fico feliz que ela faça mais do que parte da sua vida: faça também a diferença. Te amo e admiro muito!

    PS: ela merece ler esse texto.

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  2. Espanto, um profundo espanto suas palavras me causam, mas hoje foi muito. Foi mais. Pq além da sua beleza, vc descreveu a minha de ja ter tido experiencia semelhante… Pareceu. Hj tenho pai simbolico, marido da mãe…
    Um beijo enorme
    Helena

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  3. Iluminar cansaços é uma forma tão legítima de defesa, de capacidade. Dá prá ir em frente sim, com isso e alguns outros poderes. Poucos, porque essas coisas precisam ser simples. Delícia saber um pouco tuas coisas, Beta. Beijo.

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  4. Beta,

    Simbólico todo o enredo, simbólico o gesto de nos emprestares o que teus olhos escrevem, simbólicas tuas mãos, que vemos e lemos enquanto o texto nos fala, e que sentimos que suam na palma das palavras, as comovidas.

    Destaco, entre muito mais que me impressiona no teu estilo:

    “Delicadeza de dizer os furacões; assim acostumei a ser, delicada fúria.”

    “O dono dos pés parecia um grande náufrago, mesmo que menino.”

    “– naquele calendário já decorreram séculos, tanto o encarei.”

    “Arranca-se, encarrega-se de se desnutrir de amor até a morte.”

    Brilhante, menina-poeta.

    Um beijo.

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  5. Paridos os símbolos assim do próprio afeto, a palavra mãe também requer nascimento. Quem adveio de quem nisso de se conceberem, de se reconhecerem da mesma linhagem? Tiveste três lindas crias: a mulher, o irmão e o texto.

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  6. Beta, lindo seu Texto. Muito bom estar te visitando.
    Obrigada por estar entre Amigos no Faceboook.
    Estou passeando pela sua Casa e apreciando um pouco de um tudo. estou lendo, relendo, aprendendo. Obrigada. estarei sempre te visitando, com profundo respeito de uma aprendiz que está ‘ousando’ o universo das palavras
    Se desejar pode ir na minha humilde e ainda neném Casa. Me sentire honrada.
    com amor e carinho
    Sílvia
    http://www.silviacostardi.com/

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  7. Beta é um imenso prazer passear nesa Casa encantadora. Obrigada pelo aprendizado. Estou a ler e reler e já estou completamente apaixonada. Voltarei sempre. Obrigada pela amizade no Facebook. E, se desejar pode ir lá em Casa que ficare honrada.
    com amor e carinho,
    Sílvia
    http://www.silviacostardi.com/

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  8. tentei comentar ontem várias vezes sobre esse texto, mas não a página de comentários teimou em não abrir… beta, achei esse texto uma história, um conto do cansaço do desespero da esperança, e sobrevi, no horizonte, um livrro, sobre a trindade, sempre simbólica.

    muito bonito.
    obrigada.

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  9. o ciúme, o amor, a vontade: todo irmão que nasce e todas as sensações – nenhuma a verdadeira, a única. as tantas. todo irmão simbólico ou não. tudo simbólico. tudo inventado. tudo antes da gente nascer: linguagem, sonho, história. derradeirices.

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