Delírio oceânico

Maravilhada com o alarde na rebentação, escapam ao meu entendimento suas palavras, fundas superfícies. Nado por elas, como num fado de línguas em acorde. Você me diz algo como o azul do céu-mar, invadido de vento e areia. No enquanto, rabisco agônicos retorcimentos: brejeira a festa do mato, obstinado frente ao delírio oceânico. Arrancado do tempo de crescer, ele reside no quase extinto das apoteoses atlânticas. Cato palavras que contêm os sussurros – mato, morro. E o vento desaba no penteado da moça. Inclino para a tempestade potencial. Voam os vestidos, dádivas como o sol. Você quer abrir a gema radiosa, despejá-la no leite da pele: melaninas trabalham atônitas para libertar a mulata retida no mármore de Rodin. Bendigo o espelho carnavalizado de mim: seu corpo estendido no varal dos meus olhos. Eu, pálida ofegância, embrulhada na sombra, aguardo o ritual de libertação do bronzeamento. Resgato palitos de sorvete, coisas retirantes – aqui lamberam, penso em combustão. Espocam hoje, fogos de reveillon, estes flashbacks, porque inverno, e no domingo estivemos ausentes de brilhar rabiscos agônicos e murmurejar fundas superfícies. Teu corpo estendido no varal dos meus olhos: lembranças de planaltos perfazendo litorais. Violável o tempo da intimidade, rasteiras entranhas. Desabo vento no penteado da moça, voando com os vestidos, extinta de apoteoses atlânticas – acordo de línguas. Feito mato, morro. Eiras nos tornam iguais, beiradas de fundos enigmas. A festa incendiada de amar, rearmar os motivos. Intacta a beleza das mãos que tocam meu rosto desde a primeira vez. Tremia, revolucionária alma, panfletando meus olhos vermelhos de tanto chorar. Por entre a cova dos seios, renasci dourada de verão, eu que me inventei na tempestade. O sertão que me faz pontes. Os estios que me sangram mais que rios. A marcha-maré, que abre furúnculos, devolve flores. Abscesso de querer conotar. Lembranças. Volúveis as palavras, orifícios de verbos. Reencontro nestas distâncias o todo dia da nossa cama povoada das eternidades que sonhamos. Me apego aos desastres. Veja – questão de permear letras – eu os apago.

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16 comentários sobre “Delírio oceânico

  1. Idílio de passagem, dinâmico, fotografado em ASA 1000.

    Ou uma tarde de sol com o contraste certo, o que acaba sendo a mesma coisa =)
    Beijo, Beta.

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  2. Esta ilha me foi apresentada com alegria, por uma amiga muito querida, desbravadora voraz de todos os mares, inclusive os virtuais. O desenrolar do texto, a cadência de ondas que tem, as imagens que projeta, tudo emociona.

    Beijos,
    Elis

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  3. Beta,

    Ler texto teu é como render-se a uma rede de retalhos tecidos a conchas, pétalas, ciscos…
    É encostar o nariz numa janela de vitrais coloridos, sentindo também os tons “retirantes” de quem olhou para ela com paisagens na retina e um caco, uma conta de palavra catada na saia.
    Despenteiada é como se sai daqui.

    Um beijàflor.

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  4. preciso me atualizar!
    saudade da leitura dos seus textos.
    volto já.

    agora passei principalmente para lhe agradecer pela lembrança pelo meu aniversário lá no corpestranho. fiquei feliz.

    beijo grande, querida.

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