digressões do sentir, oldies: beta-mania (blogger)

Crisálida

Minha vida é um templo, no interior do qual eu me exibo, destino minha fé, de dias tristes e bonitos. Tudo em parte ganha significado único, nessa clausura de coisa-dentro metida em abismo. A sepultura é viva, é cheia de flores. E os canteiros gracejam sobre a estátua os tormentos. Por isso um girassol rosna no céu da boca a crisálida existência. Dentro da apatia: dogma. Para além do feitiço: cientificismo. Persigo instintos dentro do cárcere-martírio. Graciliano Ramos – de girassóis. Memórias minhas – e de Adriano. Livros que não li. Beira encantos a solidão da lua, almejo um código de insólita transcendência. Sei que é final, é passagem esse tempo, soldando fortunas, no rio do caminho. Minha sorte é diversa; penetro mistério absurdo pensamento. Nada que me deixa é só pensamento. O que foi fogo é fuligem, menos verdade que encanto. A menina de bochechas redondas me sorri os destinos. E há sorrisos para além de horizontes. Não fosse a memória atenta do homem. Um dia eu me descobri sem memória. É tão triste, é roto o caminho. Os desmemoriados se lembram e alucinam, depois esquecem para sempre. A abertura é fina na válvula do cérebro. Preciso da chave para abrir o que persigo. Falta a chave. Sumiu a porta. Há um muro frágil que eu pulo não só quando quero. Essa coisa me vestindo o meu dentro. Eu invisto e saio às ruas. É tudo nu por dentro. Os vestidos não têm vez, por isso a voz é nua. Eu tenho a madeira, matéria-prima pra porta. Mão de obra é a mão do tempo. Decido me aproveitar do tormento. Talvez eu saia, talvez eu fuja, talvez eu derrube esse forte armado de orações. É quando a crisálida desarma em vôo o nado borboleta. Vão ser livres até o fim dos tempos: eu, a borboleta, e minha memória pouco atenta, porém fiel, no quase sempre.

(Parido nos confins de 2004 – texto que pede passagem, quer ser relido. Dou de viver ao tormento de libertá-lo num novo).

Padrão

3 comentários sobre “Crisálida

  1. Beta,

    Não preciso dizer o quanto aprecio as frases curtas, quando se sabe colocar tudo dentro delas. A forma de compor como colcha de retalhos, ou reunir conchas de riachos, num texto enxuto e figurativo.
    Também no se deixar brechas para intertextos: eu deliro!

    Abro alas à tua escrita.
    E que o reabrir de portas apontem sempre os teus sentires.

    Beijàflor.
    .
    .
    .
    Katyuscia

    Curtir

  2. palavras pesando a vida. pesando uma vida.
    ontem eu pensei que gostaria que em cima do meu túmulo fosse feito um jardim. mas, pensando melhor, quero começar essa jardim sobre a vida e sobre a morte, já agora, antes do húmus e da cinza.

    beijo, querida.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s