Velhas novidades barrocas

Patrimônio pessoal é não ter de enterrar meus mortos. Vivo por eles o pálido e o carmesim da memória. Saboreio não renunciar, mortos e vivos, nem dispenso o frescor de frutas que por mais doces, apodrecerão. Não comparo metáforas, da terra devoro os aromas, sem questionar se transmuto serventias. O que espero é o préstimo das horas que se eternizam, quando absurdam: bem lúbrica na insensatez de sonhos, celeste na alcova, cavalgo equívocos certeiros durando em corpos amanhecidos de penumbra e luz. Um pra quê imprestável que eu onero de ternuras. Sem saber o porquê de não colidir nuances, frequento o prazer do erro, se tudo está no seu lugar, mesmo assim. Outro modo também me valeria: pavor invade, desconstrói, depois retoma direções. Eu aninho um afeto sem passaportes, aí é o mar que vai ao porto. Espero, aguardo, lanceio pra depois. Por mais que pra sempre, nada escapa a indulgência cruel da morte que a tudo inaugura e desfecha. Irremissível é não perdoar, não apertar contra si o corpo fervoroso da esperança, não dizer adeus sabendo o até mais, nunca mais ver, sempre lembrar. Se tenho sabedoria entre pernas, o calor melancólico no peito, não usá-la por quê? Abonar a experiência de um frio glacial, só porque verão, se desejo o acolhimento das sombras? Solar eu me arrisco, quando o riso vale a seita, aí eu histérica ou silente, mensurando o que cabe pra ser feliz, governada de apostas, que motivam e desmancham certezas, se houver o êxtase camponês de colhê-las. Venho pra anunciar minha maior sequela: estou viva, ardente estátua, estuário que abraça o mar. Invento, convenciono, pratico beijos guardados, testemunho abraços que não deixo de dar. Propícia, caibo onde quero, sustento a minha inadequação, ou a infiel sentença: porões habitam os segredos – e a infância. Decadente arcano, prendo no meu dia nublado o sagrado verossímil de um azul-céu. Invernal, mas cheia flor, herdo o futuro tão possível quanto o lembrar, moldo velhas novidades barrocas. Formas inaugurais atravessam meus olhos de um castanho não brando: escuro intumescido de devir.

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12 comentários em “Velhas novidades barrocas

  1. especialmente essa passagem vai comigo:

    “Propícia, caibo onde quero, sustento a minha inadequação, ou a infiel sentença: porões habitam os segredos – e a infância. Decadente arcano, prendo no meu dia nublado o sagrado verossímil de um azul-céu. Invernal, mas cheia flor, herdo o futuro tão possível quanto o lembrar…”

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  2. Você, que compreende que a vida faz curvas e que somos só desvios. o resto é imagem – fraca, embora também merecedora de ternuras. a vida também é morte e é preciso muita força – e muito amor – para abraçar aquilo que apodrece. O que é que morre, de fato? O que é que vive, inteiro?

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  3. Voltimeia te vejo assim, mesmo. A consciência de um tôdo. O legal é pressentir que és tanto, tanto mais que isso =)

    Beijo, Beta.

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  4. gosto muito da sua prosa poética. quando iniciei o texto, entretanto, me veio a poesia do carpinejar à cabeça.

    “(…) o prazer do erro, se tudo está no seu lugar, mesmo assim.”

    “Venho pra anunciar minha maior sequela: estou viva (…)”

    sensacional!

    gosto do seu encadeamento de idéias, que me lembra o movimento de um moinho, subindo e descendo carregando e entornando as águas. é uma harmônica intervenção na natureza.

    beijo, beta.

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  5. Que texto lindo!!!!
    Dentre as tantas imagens que abismam, me ficou forte o “Não comparo metáforas, da terra devoro os aromas, sem questionar se transmuto serventias.”

    Gostei da mudança que você fez no layout do blog. Por que será, né? rsrsrs Agora, o mar no cimo do blog está fantástico!

    Saudades! Te amo!!!

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