adensamento poético, digressões do sentir

Velhas novidades barrocas

Patrimônio pessoal é não ter de enterrar meus mortos. Vivo por eles o pálido e o carmesim da memória. Saboreio não renunciar, mortos e vivos, nem dispenso o frescor de frutas que por mais doces, apodrecerão. Não comparo metáforas, da terra devoro os aromas, sem questionar se transmuto serventias. O que espero é o préstimo das horas que se eternizam, quando absurdam: bem lúbrica na insensatez de sonhos, celeste na alcova, cavalgo equívocos certeiros durando em corpos amanhecidos de penumbra e luz. Um pra quê imprestável que eu onero de ternuras. Sem saber o porquê de não colidir nuances, frequento o prazer do erro, se tudo está no seu lugar, mesmo assim. Outro modo também me valeria: pavor invade, desconstrói, depois retoma direções. Eu aninho um afeto sem passaportes, aí é o mar que vai ao porto. Espero, aguardo, lanceio pra depois. Por mais que pra sempre, nada escapa a indulgência cruel da morte que a tudo inaugura e desfecha. Irremissível é não perdoar, não apertar contra si o corpo fervoroso da esperança, não dizer adeus sabendo o até mais, nunca mais ver, sempre lembrar. Se tenho sabedoria entre pernas, o calor melancólico no peito, não usá-la por quê? Abonar a experiência de um frio glacial, só porque verão, se desejo o acolhimento das sombras? Solar eu me arrisco, quando o riso vale a seita, aí eu histérica ou silente, mensurando o que cabe pra ser feliz, governada de apostas, que motivam e desmancham certezas, se houver o êxtase camponês de colhê-las. Venho pra anunciar minha maior sequela: estou viva, ardente estátua, estuário que abraça o mar. Invento, convenciono, pratico beijos guardados, testemunho abraços que não deixo de dar. Propícia, caibo onde quero, sustento a minha inadequação, ou a infiel sentença: porões habitam os segredos – e a infância. Decadente arcano, prendo no meu dia nublado o sagrado verossímil de um azul-céu. Invernal, mas cheia flor, herdo o futuro tão possível quanto o lembrar, moldo velhas novidades barrocas. Formas inaugurais atravessam meus olhos de um castanho não brando: escuro intumescido de devir.

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Ínfimo modo

Inteira vivo pra dizer: nasci.
Planto aves e senões.
Sou agulha num palheiro.
Um feno na tarde, sob o sol.

Colhes o meu ínfimo modo de te escolher.

Me invades,
Sazonal, tão violável
Impura herbácea rasteira.

Como se um pouso
As andorinhas no meu rosto
Cultivam seus gerânios.
Eu nada sei da brotação.

Pendo pro voo
O aroma macio
Atento ao viço da moça.
Imponderável, germino.

Que mais perfume que o visgo e a gosma?

Mais profundo é existir.

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