digressões do sentir

Tangências

Sussurros se vão em homens que apuram com rigor a barba. Homens espertos demais para perder. Uns homens duros, fátuos, acumulados de assertivas, de demonstrações. Mas homens. Homens que apuram com rigor a barba sorriem pontuais. Ponderam estratégias, insólitos de tanta realidade: governam, gerem, oferecem crédito. E, quando raro, ternuras dão lugar a ardis; vazam do aço dos olhos, e se insinuam na gagueira cheia de humanidade. Eu quase em pranto pelo que se esconde atrás das viris máscaras. Afim na fome, na sobrevivência, empapada da mesma gosma de realidade, insólita – por que não?, cordial – mas herética, igualmente corroída, cheia de alma e do visgo de viverem e morrerem em mim – e eu nas circunstâncias, contemplo a vulnerabilidade desses homens virgens de encantos. E me acumulo da vontade de rir e de chorar. Perco com eles os medos que não me contam. Uns seres rotos na alma enfadada da luta. Gestam destinos, à mercê das próprias perdas, fatais no leito, dormindo meninos mortos. Confiscam o sutil e vasto patrimônio da ternura, que já se vai. À cata de dinheiro, de amor, de sexo, de mãe. O meu ódio, o meu desprezo, a raiva que, obstinada, ensaio tanto para sentir, perto dos seus humores sombrios, vira brincadeira de criança. Que virou monstro – e quando o monstro vira criança? Pouco o meu engenho para as artimanhas que dominam. Domino a arte de ser dominada por emoções. Aos seus olhos, hei de ser nada no mundo – não farei grande carreira, bem casmurra sob o império de desilusões, desejos, tremores. E por falar em Machado, as entrelinhas eu persigo para explicar a soma da discórdia que sinto frente aos homens que apuram a barba com rigor. Invento para eles delicadezas: sentires que encobrem gestos, homens que se desvelam por trás das histórias, o deserto da infância. Fantasio os homens, os meninos, e o que rasga esses seres multiformes: espertos demais, meninos demais, tão cheios de viço. Ou tão pálidos. Por mais demonstrações de boa-fé que eu lhes dê, entrevendo o que são para além de suas estratégias corroídas, eles não calam de me dizer injúrias com suas ações: iludem, subornam, institucionalizam a cara de pau. O horror vaza, ácido, dos meus olhos, fartos de afetos, vilipendiados em sua esperança. Doída do destino e do apuro débil de suas razões, destituo-me da aventura de tangê-los, esses rudimentos de homens, no meu ventre devoto de palavras. Meus olhos renegam, portanto, tais ternuras. E o meu coração não cessa de ter fome. Devoro, lúcida, um par de olhos que não se dispõe a virar alma. No espelho, ou num reino distante, miro – um pouco pesada, em quase sorriso – o vilão da vez.

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10 comentários sobre “Tangências

  1. parece falar de Deus, não o das poesias: o outro. você parece falar do dono, do Pai, do duro e correto e reto destino – que não é de ninguém. mas você amolece. encantadoramente: as infâncias perdidas, não porque lhes é por natureza destinado o passado, mas porque se diz que é lá que devem ficar. dizem…

    (e quem contesta a ordem das coisas senão aquela que, macia, tangencia crianças e monstros e homens que se despedaçam em fêmeas miudezas?)

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  2. meuparedro disse:

    Difícil, Beta.
    Algumas coisas são incontornáveis, e ruins toda-a-vida.
    Ás vezes basta um momento para se estar num papel ruim, uma fala imbecil, o roteiro mais bêsta. Escapar é devido e tudo, mas ás vezes.
    E coisas assim precisam ser ditas mesmo, de todos os lados.
    Vivas demais, tuas palavras. Sempre.
    Beijo.

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  3. Daise disse:

    Sabe o que teu texto me fez lembrar? Da dedicatória de Exupéry no seu ‘Pequeno Príncipe’:

    A LÉON WERTH
    Peço perdão às crianças por dedicar este livro a uma pessoa grande. Tenho uma desculpa séria: essa pessoa grande é o melhor amigo que possuo no mundo. Tenho uma outra desculpa: essa pessoa grande é capaz de compreender todas as coisas, até mesmo os livros de criança. Tenho ainda uma terceira: essa pessoa grande mora na França, e ela tem fome e frio. Ela precisa de consolo. Se todas essas desculpas não bastam, eu dedico então esse livro à criança que essa pessoa grande já foi. Todas as pessoas grandes foram um dia crianças. (Mas poucas se lembram disso). Corrijo, portanto, a dedicatória:

    A LÉON WERTH
    QUANDO ELE ERA CRIANÇA

    Acho de uma delicadez! (como o que escreves).

    Beijo.

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  4. Roberta, achei este seu ensaio excelente. Uma espécie de inquietação do sentir, perante “homens que apuram a barba com rigor”, muito bem explorado em todo o texto.
    Já tinha lido alguns poemas, que achei muito bons. Mas hoje fiquei a perceber a sua versatilidade, muito embora tenha notado um fio condutor comum aos dois géneros literários.
    Boa semana, beijo.

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  5. Comentei aqui há pouco, mas acho que o comentário sumiu… 😦

    Disse, mais ou menos, que o texto é perfeito. Exato naquilo que cala, preciso naquilo que sugere. De uma poesia entre terna e cruel…

    Te amo!!!

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