Pequeno manifesto

Não compactuo com toda sorte de pessoas que renegam seus martírios para auferirem a leveza como status. Leves é que não são os seus acordos com a consciência. Incongruente como um ateu a entregar ex-votos, quem não lima o coração não reconhece o próprio sangue que lhe é seiva da vida.

Complicada a paz de quem se expropria de si, exibindo o verniz nos sorrisos, alienado de suas funduras, por temor de esquadrinhar labirintos. Que não esqueçam: do abismo vê-se o céu!

E se a vida, assim como a alma, não se afiguram só tensão e densidade, também não se definem pela inabalável paz de espírito.

Há grilhões perfazendo voos, furúnculos nas carnes tenras, prazer aterrado à dor, obsessão travestida de certeza, uma tonitroante infinidade de gemidos ecoando em quem diz são.

Não aceito que escorracem os temores, as doenças, a virulência dos possuídos. Há que se ter paz mas também que se aceitar perdido, sem desfecho, desfalecido.

Não por um modo poético e portanto fugidio de remetar às loucuras. Preserva-se de algum modo quem se abisma, encara seus bichos arredios antes que eles lhe abjurem. Pode não ter volta. No entanto, muito mais fácil retornar quando se conhece o caminho.

Necessário devolver aos muros o seu lugar. Porque em algum momento estivemos todos em cima deles. Há que se respeitá-los como também promover-lhes a derrubada, impregná-los do bálsamo satânico da discórdia.

Encerrar-se num cômodo vendo-se mundo, apequenar-se no infinito das massas, sofrer o vazio e a imensidão de Deus, dogmatizar-se. Ser acometido de razão.

Não corroboro a idéia de que viver seja fácil. Nem por isso morreremos aos 20. Também não é simples, mesmo sendo a simplicidade um atributo da sabedoria de viver. Viver tem muito do flagelo da paixão.

Eu peço coragem. E a coragem de ter medo. Que ninguém me diga que é preciso sempre acreditar, ser contente full-time. Esse tipo de harmonia obscena, constrange, porque é qualquer coisa de invenção, que não artística. A harmonia tem de vir como música, encadear acordes. Ser um acordo íntimo, não uma imposição.

Ela costuma acontecer com quem se particulariza, depois se funde como humano ser. Com quem se busca com obstinação, e com nuances. Amigo não complacente das próprias fronteiras.

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