Testamento Lírico

Se quiserem saber se pedi muito
Ou se nada pedi, nesta minha vida,
Saiba, senhor, que sempre perdi

Na criança que fui, tão confundida.

À noite ouvia vozes e regressos.
A noite me falava sempre sempre
Do possível de fábulas. De fadas.

O mundo na varanda. Céu aberto.
Castanheiras doiradas. Meu espanto.
Diante das muitas falas, das risadas.

Eu era criança delirante.

Nem soube defender-me das palavras.
Nem soube dizer das aflições, da mágoa
De não saber dizer coisas amantes.

O que vivia em mim, sempre calava.

E não sou mais que a infância. Nem pretendo
Ser outra, comedida. Ah, se soubésseis!
Ter escolhido um mundo, este em que vivo

Ter rituais e gestos e lembranças.
Viver secretamente. em sigilo
Permanecer aquela, esquiva e dócil

Querer deixar um testamento lírico

E escutar (apesar) entre as paredes
Um ruído inquietante de sorrisos
Uma boca de plumas, murmurante.

Nem sempre há de falar-vos um poeta.
E ainda que minha voz não seja ouvida
Um dentre vós, resguardará (por certo)

A criança que foi. Tão confundida.

(Hilda Hilst, Exercícios)

Drama x Tragédia

O drama pede adjetivação, o juízo de valor. A tragédia reivindica justo o oposto. Por se revelar inexorável, dispensa os adjetivos e se torna mais substantiva. As coisas, no âmbito trágico, simplesmente são. Não há heróis ou bandidos, não há vítimas ou culpados. Há apenas o ser humano e o livre arbítrio, o homem diante da premência de resolver como lidar com um obstáculo muito concreto e irreversível que lhe atravessou o caminho.
 
(Ana Kutner, filha do ator Paulo José, na Bravo deste mês).
 

Achei perfeito. Só não sei se o trágico comporta livre arbítrio.

Dentro do sonho

Tudo um cogitar dentro do sonho.
Silenciada pela noite, miro o teu canto que me diz.
O teu nome, o teu nome eu não digo.

Tudo que eu dissesse fosse largo como o mar…

Debaixo de uma trança é que eu me visto.
Me azucrinas com teu cabelo de égua.
Eu te infinito tortuosa, beirando umbrais.

Abre-se em mim a ópera, uns cantos da viração.
O véu do teu rosto desvelando o meu.
Insanos como uma floresta.

De tudo que me arde caberia na canção:
Orbitar, cor de sangue, a palavra cheia de vertentes.
Não sendo nuvem, levitar no faz de conta da ocasião.

Teus olhos imaginando minha boca…

No mais, ser árdua. Os meus modos viventes,
Sorridos, lacrimosos, cotejando sensações
Do frio e do quente, fruindo
A arrastada música dos ventres.

Áspera tecitura: alinhavar os delírios…

Poemas que são músicas (que são poemas):

Álibi

Havia mais que um desejo
A força do beijo
Por mais que vadia
Não sacia mais
Meus olhos lacrimejam seu corpo
Exposto à mentira do calor da ira
Do afã de um desejo que não contraíra
No amor, a tortura está por um triz
Mas a gente atura e até se mostra feliz
Quando se tem o álibi
De ter nascido ávido
E convivido inválido
Mesmo sem ter havido. 
 

Djavan