digressões do sentir, oldies: sede (blogger)

Travessia

Ecoam lentos certos cantos, não obstante a ânsia por ouvi-los. Devoram. Devem ser decantados. Em nome do que? Do tom, do som, do prazer.Eu sigo riscando o que digo. Demolindo frases, encurtando sentenças. Só assim têm reverberado. Tudo áspero, imediato. Mas o desejo é de enchente. Continuidades que não chegam. Contiguidades que eu ataco. E se eu escrevo “eu te infinito tortuosa”, isso é uma travessia. Folhas que se consomem. Flores fósseis que despertam. “Azucrina o teu cabelo de égua”. Ecoa, lento ecoa o canto. Demora maré que me sangra.Acontecendo na vida os meus sussurros. Pra me livrar do tormento, pela salvação, pelo fetiche. Jogo de azar. Mormente o pranto. Esgarço a teia do dizer movendo brisas enfurecidas.

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intertextos, oldies: atalhos pra alma, poesia

Meu coração bate desamparado

Hoje acordei normal, como antes de fazer treze anos./ A poesia me abraça detrás do muro, levanta/ a saia pra eu ver, amorosa e doida./ Estou no começo do meu desespero/ e só tenho dois caminhos:/ ou viro doida ou santa./ Eu quero a revolução mas antes quero um ritmo./ Em certas manhãs desrezo:/ a vida humana é muito miserável./ Minhas fantasias eróticas, sei agora,/ eram fantasias de céu./ Há dentro de mim uma paisagem/ entre meio-dia e duas horas da tarde./ Se esvai de mim o nojo dos mortos./ Já consigo comer/ na tarde que sucede aos enterros./ Deus não me dá sossego. É meu aguilhão./ Meu coração bate desamparado/ onde minhas pernas se juntam.

 Adélia Prado

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digressões do sentir, oldies: atalhos pra alma

O começo de um dia

Só sei acontecer assim, num espreguiçamento o começo de um dia. Vem devagar a luz, que encontra meus olhos, para que eu enxergue o mundo a me sorrir. O hoje começou com o delírio de um dia bem empenhado no azul, as turbinas do mundo girando hélices alucinadas, ventando meus cabelos de menina que se inventa na imensidão de vontades. Eu levanto embriagada pela prosa de Guimarães, sua língua cheia de pendor para o invento, e a poesia. Quase nada me acontece nessa manhã desacordada. As velhas “pequenas epifanias”, meu doce Caio. Um pouco de amor, vindo de muitas projeções, e a perspectiva de que sonhar me põe mais lúcida, como sempre. Por ora, espero o fim desse alongar de entranhas para me soltar no mundo, acontecer como gente normal, só que um pouco mais ventilada. Já vem bater na minha janela a verdadeira manhã carioca, impondo seus esfuziantes raios de sol. Antes, era um nublado que eu entrevia pela cortina, o azul correndo vivo por dentro. O dia agora aceso rouba do anil o seu contraste maior. Embora mais pálido, mais desmanchado, é ele que ainda me arde em contrastes: azul sem fronteiras. A despeito da primazia do sol.

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oldies: atalhos pra alma, poética do cotidiano

E a velha falta de jeito

Manhã alta. Sexta-feira anuncia folga relativa. Um fim de semana inteiro. E assim mesmo o tempo não se expande. Continua escasso para o que se deve. E para o que não se mede. Desejos. Circulam entre obrigações. E a velha falta de jeito para a providência. Imprevidente, porque não sei ser pragmática. A cama toda me convidando, e um fundo desejo de adentrar esquinas.

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amavisse, enternecimento, oldies: sede (blogger)

Renascimento

Olha-me, em estertor, uma mulher: ardente, vital, um rasgo de entranhas. Como se, numa selvageria, arrancasse do peito um coração, e no lugar da mulher soçobrasse o vermelho delirante, pulsando de temor o divino em si. Eu lhe digo latejâncias, e com o vigor de quem ama, comunico-lhe os limites violentos da vida e da criação. Sôfrego, dum fundo de abismo, um coração quase me mata à queima-roupa. Pálida a mulher, fenda de mim, respira-me, até que poeta, renasce do sumidouro da morte simbólica, aturdida e fertilizada por seu próprio encanto. A ponto de proceder lirismos, ela me abraça. Por fim entende que o seu nome ressuscita.

 

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adensamento poético, digressões do sentir, oldies: sede (blogger)

Transfiguração

Tola, no espelho. Devotada aos cabelos que as mãos anelam. Salva de me perder, de me dilatar no imponderável. Tola. Nunca tola. Um ser anônimo se pertence, pálido martírio.

A figura que eu sou, no espelho, louvando os cabelos, vê a si, de dentro. Mansidão. Estrela. Depois o grito escuro: mais que ave assustada, sagrada ao manto do voo, enfrente a alma! O amor me assevera doce, da neblina dos tempos.

Rubra de mim, arrepio e me cego pra vaidade cativa de mulher nas mãos de Narciso. Rica de nudez, o alvéolo do peito repousa o veneno à boca do sonhador. Que ondas? Que ciclos? Circunvoluções. Ao redor de quê? Corpo de aparições, revoadas. A mania de evocar os santos, de morrer nas paisagens.

Ancorada na noite, à beira de um mundo, suave na tormenta das palavras. Lavada pela chuva que rega minhas preces. Varrida da imagem de menina, transfigurada na mulher que lanceia seus anzóis. Deus me cabe ser há muitas mortes.

Cálidas torrentes de impossíveis deleites. O canto pastor me leva à paixão por cumes, arvoredos. Sonho que traduzo com o feitiço, com a sinestesia das palavras. A que preço? A que negrume de céu?

Secreto de mim o pranto, pendor de viver à sina de nuvens. Vivo à sorte de amar, à tradição de ter amado, ao brilho ousado de me desreconhecer perante o espelho.

Me encontro em desencontros vastos, chuva faminta depois da prece. A flor derrubada de Outono. Úmida, não apodreço, porque já outra sou.

Não me cega o que me espera com seus sóis. Me invade o cheiro salino e quente da aurora. Verdade atestada pelas águas do mar. Meus olhos dizem.

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