Notas

meu olhar perante o espelho, rodeado de sombras, desvanece a vivacidade do ontem. pura e livre, aconteci. aí veio segunda feira.

o de sempre. rota, rota, rotina. o silêncio, que é quase sempre um deleite, agoniza em dias assim, desmerece gemidos, estrelas.

afoita, incinerei os véus da tarde. havia o tempo. o tempo eu comi. por afronta. varri o incômodo pro enigma das palavras, que me abraçam com seu corpo de relva.

esqueci as que não dizem desmesuras, viés da paixão. despertenci, sorrindo, aos olhos dos outros.

então ontem, que era mar e suas latências ventando, estive, pura e livre, acontecida entre ecos de olhos que se disseram. paixões de ventar versos. ventarei mais, e sempre.

trouxe para mim uns livros bons, de sol e lua. esses franceses.. ah, os que queimam! noir ardidos. éluard: seus últimos poemas de amor devoraram meu corpo de caçadora e presa.

caço, prendo. a inquietude hoje me altera os nervos de um jeito que, inclinando pra onde correm as cascatas, abrigo as fontes.

descobri que já rejeito o silício nos olhos. e que, brancas, as pernas povoam o mundo, ao sol das quatro. lânguidas, gratas.

o suor nos cabelos não mente: ardente o ouro da primavera. aqui, inventam que é bom a brisa de um ventilador.

por hoje: rejeito o que não é rocio.

persiste, se não o roçar morno que se entende por flor, a morada de claro-escuros vivendo nos olhos que clamam.

cintilâncias: rápido tempo de pertencer. protesto e parto.

desatinada, a léguas daqui, onde me querem branda.

Entre a lua e o sol

Digo-te graciosa e luminosa
Tua nudez lambe meus olhos de criança
E é o êxtase de caçadores felizes
De ter aumentado uma caça translúcida
Que se dilata numa jarra sem água
Como um grão à sombra de um seixo

Eu te vejo nua arabesco atado
Agulha lenta a cada volta do relógio
O sol se instala ao longo de um dia
Raios entrelaçados tranças do meu prazer

Paul Éluard – Últimos poemas de amor