Quando me faltam asas

Sinto que me morre um pássaro
Quando me faltam asas:
As serpentes estão lá
Se esgueirando pelo chão.

Nos rincões da morte
Nudez, mornos vapores
Não voaram.

Não me cabe contestar o vento
Nem amputar o espanto
De brecar a decolagem.

De repente, a palavra empalha,
Empilha nos túmulos
E nos estilingues.

Passaredo engano,
Tão só palavra
Paliativa.

O menino Manoel

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse
gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
– Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o
Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença, pode
muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto
por nadas…
E se riu.
Você não é de bugre? – ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas –
Pois é nos desvios que encontra as melhores
surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
agramática.

(Manoel de Barros – O livro das ignorãças)