dolências, ficções, oldies: sede (blogger)

O som da nossa infância.

Não inaugurou três anos antes que eu também nascesse para velar sua harmonia de menino. Como em todos os processos irreversíveis de entropia, crescemos irmanados, sistêmicos, no seguro calor que nos mantinha intrincados, unidos, desde pouco mais que o berço. Mesmo mais velho, pôs seus olhos de ânsia brandura sobre mim. O olhar que cavamos em criança, eu arguta na sua melancolia, determinou o fado de estar sempre ao seu lado. Não era necessário que disséssemos, ainda muito cedo, da estranha necessidade de permanecermos imbricados, parelhos no tempo-espaço, afeiçoados. Assim estivemos, ano após ano desse princípio, que trouxe sua fé pelos enigmas, pela natureza, e a veemente brandura do seu olhar. Juntos, só que santos, enquanto eu aguardava que fraternos morrêssemos para nascermos amantes. Inexaurível promessa que depositei em nossos senões. Se não era eu que sonhava com o que você haveria de me dar, fermentada na idéia me salvar do desterro e viver o nosso talvez atávico caso de amor! Se não era você que me usurpava do seu leito, talvez mais brando do que conviesse… Éramos nós que nem sequer no auge de nossas urdidas tramas de cegos encontros, promovemos os abraços. Nem movemos os corpos na sagrada dança de ocasos, plenilúnios, e outras mitologias densamente sonhadas. Eu me bordei de expectativas por nosso glorioso futuro, menino, glorioso. Sabido que era pra sermos um par, e costurarmos juntos nossos destinos. Deixamos escapar a palavra que se inventasse no correr da pena, até formar o contorno duma história. Que era isso e hoje é poeira e pesar? Distanciados do acordo que velamos em velhos mares, o já remoto da infância e com ela outros muitos fatos aleatórios que precipitaram o aparte, saídos das dobras de uma vida fundante pra uma vida infundada, afundamos nós dois. Nós dois, mais ninguém. Falar da nau louca que nos leva, já adultos, já sóbrios, já dormentes pra onde não há farol, não há porto: nisso testemunhar os percursos da memória e tirar dos anos esse gosto perpetuado do silêncio que era a arma da delicadeza, perigosa contradição de termos. Eu não percebi que não dizendo, eu não viveria, porque você, já bem posto na vida, largaria meus pequenos implícitos gestos de amor para arriscar sua guerra particular. Como não percebesse que eu sumia para amainar o lamento, parti então bem mais velha que você, acumulada das histórias da mulher e mãe que eu não fui. Você me deve isso, meu menino, que me olhava com a pureza colorida dos primeiros anos, ali nas brincadeiras de mulher e moça que eu sonhava ser. Era tanta a certeza, tamanho o bem viver dos olhos, verde ou mel impregnados da suprema poesia. Deve a alegria que eu senti e sua robusta pressa me tirou, por se delinear bonito e moço antes que eu. Logo ali pouco mais de um, dois anos, no máximo, eu alcançaria a mesma mocidade e engenho para os beijos, as armadilhas, para vivermos a enchente, a selvageria. E fruir os frutos. Você me deve a dor do parto, que não tive, o espanto de amar, me deve a lembrança que já se perde no fundo de um móvel, onde, recostados à sombra do suor dos outros, arriscávamos que nos vissem ali e interpretassem errado o que era certo, abrasado. A gente ali repousava do cansaço de correr com pedras nas mãos e ria de não entender porque corríamos com as mãos nas pedras, para depois depositá-las, numerosas de salgada aventura, num velho armário carcomido de cupim, oco de lembranças subtraídas para melhor se esquecer. As formas múltiplas-mundanas-minerais do meu coração. Conjecturávamos que nos tardar de anos, muitos anos, revistaríamos o mesmo móvel para receber as pedras que eram o testemunho da passagem do tempo, e a um dado ponto, da nossa necessidade de permanecer. Antes dos livros, pedras. Ao fim se revelaram inúteis, primárias pro que intencionávamos. Avancei das pedras aos livros que guardavam o mesmo cheiro da espera. Abri caminhos na solidão, largas cicatrizes. Porque o ideal não se cumpriu, inventei histórias, reviravoltas de calar martírio, longas marchas rumo ao canto que libertasse essa voz sempre guardada, esse silêncio, fastígio das duras constatações. Antes, doce limite do que mora dentro. É possível que ele triunfe, ainda e sempre, gentil e mortal entre nós. Mas, quem sabe, eu possa revê-lo com os olhos pueris que não temem os anos, momento épico retorcido da ilusão que ambos alimentamos com o som da nossa infância. Não leve embora da minha memória, meu menino, a sua risada jamais corroída pelo tempo, mas me diga, de uma vez por todas, que você não vem.

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2 comentários sobre “O som da nossa infância.

  1. “…E fruir os frutos.”

    Beta, aqui te vejo sentada no chão que range como ponte, ao pé de uma janela onde, quiçá, é porto de um pombo-correio; com lápis e papel na mão, escreves uma carta cuja data só pertence à infância, que não se data.
    E que selo? Se o destinarário remete a tão íntima morada?!

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  2. Anna K disse:

    Menina tu escreve tão infinitamente bonito! eita, eita.
    lendo isso tudo te imaginei numa árvore, recitando as palavras todas.

    já disse que gosto MUITO daqui? pois.
    =]

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