digressões do sentir, enternecimento, no referente, oldies: sede (blogger)

Céu de Agosto

“Cai a tarde
como sempre
como sempre diferente.
Cai a tarde
de onde não se sabe…”
(Adriana Calcanhotto)

Eu, que nunca me acostumo ao azul de Agosto, não me acostumo a azul nenhum, precisava vir me despedir do céu, especialmente hoje, grata por seu turquesa matinal, tão inspirador.

A beleza viva da manhã, ainda viva na memória, de um limpo esplêndido azul, já não mais repousa a promessa de Setembros em flor. O horizonte é agora um fim de dia.

Recebo o negro blues da noite, que já vem. A tarde é cálida, de crianças, cachorros, e os velhos de banco de praça, com suas pombas famintas. Sempre os vejo por aqui, a caminho do trabalho, ou de íntimas paragens, quando deito sentimentos num papel, saboreando cachorros-quentes, epifanias.

As pombas quase me engoliram. Foi o banco que eu sentei ou quem sentou aqui, antes de mim, com seus sortilégios, seus restos de pão. Como que numa emboscada. Mal sentei, vieram tomar seu posto, de prontidão que estavam, voando raso, ameaçadoras, em minha direção. Muitas, furiosas. Por pouco, e não haveria escapatória.

Sabe-se que a estas horas o local é disputado, sobretudo os bancos e os brinquedos. Só que tamanha fúria desconcerta quem chega assim, querendo a paz e o limpo de um céu azul, turquesa lembrança. Por serem quem são, pombas de velhos que lhes dão de comer, ávidos pela pureza da fome, perdoo a suja versão do Espírito Santo.

Afinal, uma tarde de muitos jogos e pernas. Bolas voam, dos pés meninos para o gol, e de novo para os pés, sôfregos, ardentes da disputa infantil. São muitas cruzando minha vista: brancas, azuis, amarelas. Aos risos e berros deslizam, maníacas ou doces, por mãos quem ensaiam o saque, o chute certeiro.

Árvores testemunham travessuras, voleios, e pombas assassinas que engolem moças, pela sanha das letras de seus cadernos. Sacolas levam meu olhar para casas de família, bares, puteiros. Homens vestem improváveis paletós. Testemunho as árvores, e a mão que, imperiosa, ensaia o apego à fria tarde, enquanto espero as pombas voltarem, para um revide, talvez.

Na graça de um charme, a menina, com sua boneca, sentou no banco mesmo em que me expulsaram, e não havia pombas, apenas expectantes voadoras, que pararam para observá-la, transtornadas, enternecidas. Depois um bebê, e seu balde. Inútil, sem água, sem areia.

Com a mesma solenidade sem propósito, um homem ao meu lado senta-se para apurar seu visual. Ele ajeita a gravata, que retirou de uma sacola imunda, para depois vestir o terno, enquanto eu me pergunto – ao vento, a noite já nascida – por que sempre o surreal acontece quando estou aqui.

Atiço de rir com o que me frustra, quando o homem tira de sua sacola de mistérios só uma alaranjada conta de luz. Não diviso números, mas conjecturas: acaso ele espera por seu advogado? Pobre e sujo como a pomba, absurdo como eu, não mais que um personagem da história solidão.

Ato contínuo de surpresas vastas, muitos caminham, juntos, separados; para suas casas, seus poentes, para debaixo de suas pontes. Vão felizes; desesperados. Emaranhados na teia de seus passos, recolhem da paisagem algum remoto pensamento, que é possível entrever pela maneira como olham o nada, por um breve instante, transfigurados.

Carrego, além do perfume do céu de Agosto, a cor do sangue preso no casulo de ampolas de laboratório, onde máquinas averiguam doenças, onde tossem e não há cores. Presa dentro de um frasco como esses, acumulada de sangue e papéis, passei a parte maior do dia. De um dia em que o céu me gritou veementes e enlouquecidos azuis, entre matizes outros que eu não pude ver.

Talvez por isso, ou pelo olhar mancebo que flagro nesse mesmo instante, entendendo pela primeira vez um corpo de mulher; porque a poesia não cessa de acontecer com o adeus do sol, procedo ao rito de minha despedida, vermelho na noite fria, enquanto os postes inauguram a era das luzes artificiais.

A meio caminho de um choro, uma risada estridente, à noite ratifico o que leio pela manhã a respeito dos homens e seus sonhos. Inquietações, perguntas que se formulam e desvanecem.

A gravata e seu homem chutam a bola, vorazmente, aflitos, querendo brincar. Mais e mais alto, balançam as meninas, rosas anunciadas, sem mãe por perto. Carrosséis não tardam a girar.

A fim de colorir a noite, escorrego; da luz congelada de um poste às ondas irisadas dos sonhos: mansa, dolentemente. Pombas voam para a Primavera.

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