Perfume de ódio

Então ela se virou para quem lhe revolvia seu perfume de ódio, entre a mágoa e o amor sentenciou:

– Eu não sou uma vadiazinha que leu um, dois livros badalados, julgou ali encontrar seu autor preferido, seguindo uma new trend de vazios existenciais. Uma gente moderninha, underground, uma gente metida a besta, cheia dos estigmas de uma arte de boutique: roupas de grife, com palavras de ordem, filmes cult, literatura souvenir. Eu só fui até a esquina. Provinciana sim, de pai e mãe. Entre o fim do mundo e o começo dele. Pelo menos, eu não desperdicei meu olhar fazendo o v da vitória em pontos turísticos. Não frequentei faculdade de shopping, onde cuidava que não escrevesse com s o que se escreve com c de carne, carne crua e você nunca comeu. Eu aticei minha brasa no incêndio da angústia, cumpri meu destino, cantei o meu fado, minha má sorte, as muitas mortes. Ressurgi o que em mim mataram, essa mania de blues quando nem é noite. Minha geografia é sangue, mapa dos sem volta, possesso e trágico vôo que não se faz com ácido, mas com tormento, com algo chamado vida interior. Há quem aprenda a ponderação. Há quem reverencie Dionísio. E há quem reze em todos os altares só pra ver onde dá mais onda cuspir na cara de Deus, o que é mais triste. Eu reverencio o meu deus, respeito a primitiva essência, faço seita até pro meu ateísmo. Sei o quanto vale o que se ritualiza e se entrega. Vivo os meus vilões, descortino o meu verbo em ternura ou doença viva, eu não desisto, não me entrego. Faço um jeito de contar bonito o fim de uma ilusão. Não importa a carestia, de sexo, de pão, de amor. Eu conto moeda e na alma esbanjo a fortuna de quem sente em si a cicatriz do mundo. Abraço a causa, eu não visto a causa e saio por aí, um logotipo ridículo, um outdoor de clichês. E não venha falar de falta de referências, de excesso de informação, do neoliberalismo, de pais que competem com filhos, da estrutura falida de um projeto coletivo, do cacete a quatro. Esses bichos que somos comemos uns aos outros. A história se repete, talvez, sempre. É preciso que saiba disso, e ainda assim, que beba o sumo, o cruel da vida, delicadamente. O que grassa ao sagrado frutifica o tosco. Um monte de circunstâncias aleatórias, ou vaticináveis por um pré-determinismo de esperança, de fé. É uma questão de olhar ou de falta de visão. E vocês desperdiçam tudo isso, até o erro, virando nicho de mercado. Essa sua risadinha morna, sempre tão civilizado, tão humanizado, sempre tão na moda; isso amarga ainda mais minha decepção. Você não sabe onde dói a sua selva, sua serpente não enfeitiçou seu canto com o veneno de verões perdidos, nunca vomitou na vala infecta dos passionais. Eu exibo minha peçonha, violo querubins, faço correr a valsa atônita que sou. Sua paixão, a sua paixão se tatua.

Tão logo laçou a sua sorte, mergulhada em desengano, fechou com urgência a porta do carro, num pranto não menor que o trânsito de São Paulo, ardida num Corsa 97, comprado em mil prestações. Para nunca mais ver aquele que lhe doeria recorrentemente n’alma, até o fim de sua vida. No livro que não leu, também não aprendeu o que vida dá, nem o que a vida tira. Consciente de seu talento, pleno ou plano, era como se ofertasse ao mundo o viés de um gênio, estilo inconfundível de seu melhor momento. Para os críticos, era hermética. O público não a entendia. Nem ela, a heterogênea massa de leitores. Nem a si. Escreveu, entre outros, um livro de memórias, mais para calar a dor do coração. Vivia a lucidez, como também o auto-engano. Reconhecimento, só no mesmo circuito alternativo onde lhe roubaram o melhor do sorriso, o brilho de seu coração.

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