Dos sentidos e das recordações

Parte do que se vive, inventa-se. Interpretam-se dor e alegria. O que a gente lembra, ressignifica. Transforma em matéria-prima da transcendência.

Eu excedo meus calendários, nele ensejo imaginações. Enredada no tumulto de horas já extintas, minutos por contar, contradito a angústia e o prazer da lembrança. No labirinto da memória, no sorvedouro da imaginação: o tempo depura na ampulheta a finíssima areia.

Vivo no meu tempo e no de meu sonho. Devir de mesmos novos instantes, lançados ao fosso dos sentidos e das recordações. É lá que persistem as cores das muitas épocas, senil aquarela de tons vazados para o âmbar.

A atmosfera, barroca, adivinha sombras dos lugares em que estive e que inventei. Anacrônica existência. Ocasiões difusas desenham-se na mente.

O saudosismo não move essa marcha, é o vento que espalha em todas as direções, perfumes, gozos, poentes. Descostura caminhos, força eólica de invernos cedidos a vagas melancolias. E no meu lençol, hoje, o cheiro de velhas rotinas.

À minha frente, o futuro, moço devassado de premonições. Dilata o que é conhecido e mágico. Metaforiza-se em natureza.

Porque o tempo, se não é vento, é rio, seus muitos afluentes, descendo, subindo corredeiras, ganhando novos e imprevistos contornos. A cada ano, margeia coisas queridas, que vêm e vão. E a gente, com esse rio dentro, vive, saúda, e diz adeus.

Quanto mais se vive, mais se quer viver, quase que sempre. Teme-se pelo muito [pouco, sempre pouco] que se já viveu. Nascer nos desabilita a eternidade. Precários, aprendemos a notar fatalismos, despedidas. Mais por não sabê-los.

Precoce o sentimento que desde menina se entrevia na avó, sem que em ambas se ousasse ensaiar a partida. Convergidas essas filhas de Cronos, castigadas por grossa camada de rugas, infâncias mortas e ressurreições. Até breve, quem sabe — arrisco uma tardia separação. Se o ocaso não suscitar a cadência das estrelas, e a poesia da fé não acontecer, talvez até nunca.

Ainda jovem e já tanta partida, quando o sol nem invadiu o fim da manhã. Meu destino, arder nas três gradações de um dia.

Se não houver despedida, porque a vida é soma de ineditismos e reencontros, os olhos, virgens ou cansados, continuarão a destilar nascimentos, divisando imagens antigas, e o deslumbramento das coisas vindas.