amavisse, anacolutos, ficções, oldies: sede (blogger)

Espirais

– Eu gosto da sua voz.

– Mas eu não sei cantar.

– Eu gosto dos recônditos dela. De como ecoam os plurais, a maneira como a língua toca…

– O silêncio, o céu da boca? Não brinque com isso.

– Como sabe o que eu ia dizer?

– Não ia dizer. Eu que me antecipei porque senti vontade de me ouvir pra derrubar suas convicções.

– Só as agravou.

– Confesso: quanto mais baixo falo, mais me alcanço. E gosto.

– Alcança uma mística voragem, posso presumir. Liberdade morna, que se perde cotidianamente, convencionando modulações tolas.

– Exato, meu bem. Meu tom é de profundis, sem o qual eu sou só…

– Uma criança assustada.

– Como sabe?

– O que você é agora, fingindo surpresa.

– Eu gosto dessa intimidade forjada entre nós.

– Não é forjada a comunhão de nossos timbres.

– Ah, mas você tem voz de Outono, arrastando o dourado nas folhas, toda maviosa.

– Falou isso como um lamento, bonito, doce.

– E quando ri, faz rir o mar.

– Continue…

– O que sai da sua boca tem ritmo, atabaque, é ancestral. Cheio de desvãos, inflexões harmônicas.

– Gostou do jogo.

– Não é jogo, é música. Eu, sim, criança assustada, lembra? Sinfonia pálida. Sob o vinho ou sob a chuva, muito profana, a minha voz enverga pra puta, sem escalas. Por isso não levo a sério o que diz sobre ela.

– Mas eu gosto, já disse. Dos subentendidos imperando, como que medo, como que espanto. Incerta e silente, ela não se revela.

– É só jogo de palavras. Metalinguagem pra me levar pra cama.

– Não é jogo, é música, você disse. E não é metalinguagem, é metafísica. A metafísica da sua voz me interessa mais do que levá-la pra cama.

– Não nega?

– Não nego. O desejo. Como não nego a música. Nem o silêncio.

– E o que há entre música e silêncio? Entre desejo e cama?

– Sua voz.

– Minha voz testemunha a relva molhada onde recosto meu corpo sob a chuva.

– Chuva de novo. Onde leu isso?

– Eu inventei.

– Por que a chuva?

– Por que a minha voz?

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