adensamento poético, oldies: sede (blogger)

Fronteiras

Toco tua matéria com o pudor de um asceta. Obsceno afrontamento. Não obstante diametralmente oposta, persigo-te, musa dos pragmáticos, dos cartesianos. Prolíficos resultados guiam tuas estratégias. Eu abrevio minha selva. Desbasto a rocha, esculpida em nervos lassos. Mas meu cinzel é o grito. Remodelar essa pedra é matar vertigens, auroras que calo pelo abandono de desejos que não me evocas. Teus calendários, justa proporção de números, de estimativas, aturdem o atemporal que há em mim. Ainda assim te busco, desarvorada, mas reverente, talhada em raiva – a raiva que eu te tenho pela não consagração de nossos incompatíveis símbolos -, e mesmo autômata de tua perfeição, faço ritos para te alcançar. Sou das nuvens, dos cios. Carnes me vestem. Por isso, sonho. Não concebo retas; escorro, sinuosa, por arestas que talvez sejam nunca polidas. Inconforme, imprecisa. Avanço a ti, determinada em meu silêncio, mistificada pelo medo, lânguida, aflita. E o que me provocas é o que tateio em tua amorfa matéria: nadas sem rosto. Enquadramentos, perfilhações sem parentesco com o amor. Sinto que também me torno ora indefinida pela vital fronteira que ultrapasso, ferida. Tecnocrática, sangro. Só até que haja escândalo. Colore meu sangue impossíveis promessas.

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