Convalescente

Eu estava deitada, convalescendo; uma gripe muito esquisita, meio amidalite, meio gripe mesmo. Pensava na morte da bezerra, e na minha própria, que há dias tento respirar decentemente – quase sem sucesso – com o nariz que Deus me deu.

Deus também me deu um jeito melancólico e um ar torturado. Mania de enunciar muito estranhamente os meus prazeres, minhas aflições, como se não soubesse diferenciá-los. Acaso nem sei se sei. (Anseio que sim para o bem de minha sanidade. Ainda não me atrevi pelos pantanosos terrenos do masoquismo. Tanto melhor).

Estava deitada convalescendo com o ar torturado e melancólico de sempre, quando, fazendo a primeira coisa útil ou definitivamente inútil do dia estiquei-me longamente que sou em direção ao caderno verde para umas retorcidas e familiares palavras de evasão, despejadas, por ora, sem menor pudor, nesse inverossímil relato – livre, mas escabroso exercício do dizer.

Sem reservas, só com o resto da febre do corpo, nada metafórica, ditei o de mim, sentido e possesso: “Quando nada basta! O amor, o sonho, esse pranto da noite, a infância abstrata na memória, descosturando teus dramas… É que a vida…”.

Estaquei nesse ponto, desordenada como de costume, pensando no caráter desolador de ter no meu corpo vestígios não metafóricos de febre, além de sintomas nada poéticos que o vernáculo também não poetizou: coriza, tosse, dor de garganta.

Afoita que sou! Tão célere escrevi, rabisquei minhas linhas, afrontada com meu afrontamento. Elencar assim, num só e irresponsável jacto, num dia de insólita convalescença, meus termos essenciais: amor, sonho, infância, memória, drama, vida.

Martirizada pela audácia, desacorçoada pela incompletude de palavras que não pensei, mas senti, e assim quase sempre, pela febre sem metáforas, retorci foi o meu lírico pescoço: Tão urdida na trama da vida! Por que assim: tão funda, tão ferida? Quem você pensa que é? Quem foi que te feriu assim para aos vinte e poucos dizer: ’quando nada basta!’? Que afrontamento! Tão penosamente o pranto!

Quem deslocou meus moinhos de vento? Não sei. Quem os inaugurou à moda quixotesca? Tampouco a resposta. “Toda palavra é propícia. Se tem chama, ou se tem drama”, devolvi com a caneta desenhando as letras no papel. Ou seriam os moinhos?

Sabia e sei o fundo disso tudo. Lançada elas vêm, acesas desde o nascedouro. Mas não hoje, num dia vago de doença, não assim: “É que a vida…”. A vida o que? À vida os seus montantes mais vultosos que a sentença não dada! A vida por viver!

Não há possível equilíbrio na relação que estabeleço com meu texto. E às vezes cansa ou assusta a urgência adolescente com que as gaivotas aos meus pés pedem céu. Assusta e cansa sim, dar-lhes sempre e incondicionalmente o pouso mais fundo, partidas para marés nunca exatas.

Porque há dias em que certas palavras devem dormir o seu sonho fecundo, sem urgência. Dormir e convalescer, sem pressa a sua febre menor. Se não vira um pendor que me move a perder o chão. O mesmo chão em que pouso sem motivos esses meus pés de gaivota faminta. Eles partem para tantas vidas, não é? “É que a vida…”.

Não há tolerância para meus desregramentos poéticos. Motivados por enunciações, metalinguagens, dizem-se, à luz do dia, da noite, da morte. Assim eles são. Alucinados relatos das veias, que tossem as minhas falas pouco lúcidas, exasperadas da poesia incauta e virótica que lanço às febres de mim. Em mim.

E sem mais, convalesço. Eu convalesço de existir.

Fronteiras

Toco tua matéria com o pudor de um asceta. Obsceno afrontamento. Não obstante diametralmente oposta, persigo-te, musa dos pragmáticos, dos cartesianos. Prolíficos resultados guiam tuas estratégias. Eu abrevio minha selva. Desbasto a rocha, esculpida em nervos lassos. Mas meu cinzel é o grito. Remodelar essa pedra é matar vertigens, auroras que calo pelo abandono de desejos que não me evocas. Teus calendários, justa proporção de números, de estimativas, aturdem o atemporal que há em mim. Ainda assim te busco, desarvorada, mas reverente, talhada em raiva – a raiva que eu te tenho pela não consagração de nossos incompatíveis símbolos -, e mesmo autômata de tua perfeição, faço ritos para te alcançar. Sou das nuvens, dos cios. Carnes me vestem. Por isso, sonho. Não concebo retas; escorro, sinuosa, por arestas que talvez sejam nunca polidas. Inconforme, imprecisa. Avanço a ti, determinada em meu silêncio, mistificada pelo medo, lânguida, aflita. E o que me provocas é o que tateio em tua amorfa matéria: nadas sem rosto. Enquadramentos, perfilhações sem parentesco com o amor. Sinto que também me torno ora indefinida pela vital fronteira que ultrapasso, ferida. Tecnocrática, sangro. Só até que haja escândalo. Colore meu sangue impossíveis promessas.

Amálgama

A vida me persegue com seus timbres
Roucas vozes do acontecimento;
Nada me amedronta mais
Que a face intacta das coisas.

Tomo de açoite o banquete das rosas
Oásis de brancura estendem-se
Em escarlates ensandecidos
De-lírios à veia acesa.

Restam desertos
Que o sol, tresloucado
Chama de poemas.

A areia arranha o silêncio do pêlo e sua
Mistura de sal no sentido da pele
Perduram águas.

À sina de mim
Amálgamas vertem suas misturas
Que a pureza dos olhos
Chama pássaros

Circundam o mel do corpo
Venta, na eriçada
Flor do ventre.